O professor Aloysio Fagerlande, da Escola de Música da UFRJ, foi empossado em junho como novo coordenador da Área de Artes da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). Doutor em Música pela UNIRIO, mestre em Música pela UFRJ e professor titular da instituição, Fagerlande possui uma trajetória consolidada como músico, pesquisador e gestor acadêmico.
Ao longo de sua carreira, coordenou o Programa de Pós-Graduação Profissional em Música (PROMUS/UFRJ) entre 2016 e 2022, atuou como secretário-executivo do Fórum Nacional de Programas Profissionais (FOPROF) e, desde 2022, exercia a função de coordenador de Programas Profissionais na Área de Artes da CAPES. Agora, passa a liderar a coordenação da Área de Artes, responsável por acompanhar e avaliar programas de pós-graduação de diferentes linguagens artísticas em todo o país.
Em entrevista, o professor destacou os principais desafios da nova função, refletiu sobre o cenário da pós-graduação em Artes no Brasil e comentou o significado da nomeação para a comunidade acadêmica.
Confira:
O senhor acaba de assumir a coordenação da Área de Artes da CAPES. Quais serão as principais prioridades e desafios desta nova gestão?
Os desafios são sempre os mesmos, e se ampliam à medida que a Área cresce. É importante estarmos atentos para as nossas especificidades, observando as características das subáreas. Os programas da Área se subdividem em quatro subáreas amplas: Artes (que reúne programas sem subdivisão de linguagens ou com perfis interdisciplinares com áreas afins), Artes Cênicas (reunindo programas em Artes Cênicas, Dança e Ensino de Artes Cênicas), Artes Visuais (que inclui programas em Artes Visuais, Cultura Visual e História da Arte) e Música (incluindo programas em Música e Ensino das Práticas Musicais).
Há diferenças entre os programas que devem ser não apenas respeitadas como valorizadas. As diferenças vão desde as estruturas institucionais até as formas e abrangências de sua inserção social, passando por processos de ensino e aprendizagem, metodologias de formação e tipologia de produção intelectual, entre outros aspectos. Segundo o Relatório de Avaliação da Área de Artes do Quadriênio 2020-2024, a diversidade foi compreendida como um valor positivo da Área, a ser fomentada dentro da busca pela qualidade dos programas, equidade de acesso, respeito à liberdade acadêmica e à autonomia da Área de Artes.
Embora tenha havido um crescimento nos últimos anos, é importante trabalharmos para a redução de assimetrias regionais. De acordo com o Relatório de Avaliação, 44% dos programas estão situados na região Sudeste, mostrando uma distribuição assimétrica a corrigir. Também é visível uma disparidade intrarregional forte, uma vez que a grande maioria dos programas fica na capital dos estados, havendo pequena capilaridade em cidades médias. É importante ampliarmos as políticas afirmativas de inclusão, permanência e acessibilidade.
A Área de Artes considera positivamente, nos Programas em funcionamento, a existência — no âmbito da instituição ou no regulamento do Programa — de políticas de ação afirmativa que busquem promover o acesso e a permanência na pós-graduação de pessoas negras (pretas e pardas), indígenas, pessoas com deficiência e pessoas trans, bem como de boas práticas de acessibilidade. Nesse contexto, será preciso continuar o debate para a definição de medidas que considerem o período de licenças parentais para discentes e docentes.
É importante frisar que todas as prioridades e desafios são enfrentados sempre coletivamente, a partir da legislação específica da CAPES e contando com o apoio das coordenações de todos os Programas de pós-graduação, em um processo de permanente diálogo.
Sua trajetória reúne experiência como docente, pesquisador, músico e gestor acadêmico. De que forma essa vivência pode contribuir para o fortalecimento da pós-graduação em Artes no Brasil?
Todas as pessoas que coordenaram a Área de Artes nos últimos quadriênios tinham essas características dentro de suas respectivas subáreas. Precisamos pensar sempre em colaborar para uma adequada inserção de nossa Área em nível nacional e internacional. É importante fortalecer cada vez mais a compreensão de como a pós-graduação na Área de Artes é vital para o país, e de como a pluralidade dos saberes e sua produção científica são fundamentais para o seu desenvolvimento.
O senhor teve atuação destacada na consolidação dos programas profissionais, tanto no PROMUS quanto no Fórum Nacional de Programas Profissionais (FOPROF). Como avalia o momento atual dos mestrados e doutorados profissionais na área de Artes?
Em 2013, começaram a funcionar os dois primeiros programas de pós-graduação profissional em Artes no Brasil. Em 2024, por ocasião do I Encontro dos Programas de Pós-graduação Profissional da Área de Artes, realizado em novembro na CAPES, em Brasília, encontramos 14 Programas distribuídos em nove estados, abrangendo todas as regiões do país, com 225 docentes e 580 alunos matriculados, tendo formado até então 815 mestres profissionais nas diversas subáreas.
Em novembro de 2025, com a realização do II Encontro dos Programas de Pós-graduação Profissional da Área de Artes na UNESPAR, em Curitiba, esses números foram atualizados. A análise dos dados entre 2024 e 2025 revela um ritmo de crescimento constante e significativo: o número de programas aumentou de 14 para 16, representando uma expansão de aproximadamente 14%. A presença geográfica também se ampliou, passando de nove para dez estados, o que reforça a capilaridade nacional do modelo.
O corpo docente cresceu de 225 para 260 professores, um acréscimo de cerca de 15%, indicando maior capacidade de orientação e oferta de disciplinas. O número de alunos matriculados subiu para 618, mantendo a tendência de crescimento gradual. O dado mais expressivo está na formação de mestres profissionais: o salto para 1.024 representa um aumento de quase 26%, evidenciando o impacto direto na qualificação artística e acadêmica. Esses indicadores apontam para uma consolidação do modelo profissional, com expansão territorial e fortalecimento institucional, sobretudo a partir da implementação dos três primeiros cursos de doutorado profissional.
Para a comunidade da Escola de Música da UFRJ, o que representa assumir essa função em um dos principais órgãos de fomento e avaliação da pós-graduação brasileira?
É uma missão importante, com muito trabalho pela frente, que espero poder realizar da melhor forma possível, assim como todas as coordenações anteriores o fizeram. Cabe destacar que o trabalho da coordenação de Área sempre se pautou pela atuação coletiva. As coordenações adjuntas, tanto de programas acadêmicos, ocupada agora pela professora Maria de Fatima Morethy Couto (UNICAMP), como a de programas profissionais, pela professora Daniela Bemfica Guimarães (UFBA), têm um papel extremamente importante por representarem também as diferentes subáreas.
Não posso deixar de mencionar como foi significativa minha participação como conselheiro do CEPG-UFRJ durante seis anos, quando pude ter a real dimensão da pós-graduação em nossa instituição, aprendendo com sua pluralidade nas diversas áreas do conhecimento. Com certeza, essa experiência me ajudará nos grandes debates no âmbito da CAPES.