A preservação da Capela Magdalena, em Guaratiba, no Rio de Janeiro, tornou-se uma preocupação de artistas, pesquisadores e instituições ligadas à música e ao patrimônio cultural. Criada pelo cravista, regente e luthier Roberto de Regina, que morreu em abril de 2025, aos 98 anos, a Capela não é apenas um espaço onde foram realizados concertos e atividades culturais. O local constitui um testemunho material da trajetória de um dos principais responsáveis pela difusão do cravo e da música renascentista e barroca no Brasil.
Roberto de Regina construiu e decorou pessoalmente a Capela Magdalena, transformando o espaço em uma extensão de sua própria concepção artística. Seus murais, pinturas, afrescos, instrumentos e elementos arquitetônicos fazem do local uma obra singular, na qual diferentes dimensões de sua atuação se encontram. Além de músico, Roberto foi construtor de cravos, regente, professor e artista visual, características que fizeram com que fosse frequentemente associado à figura do artista renascentista.
A própria trajetória do músico ajuda a dimensionar a importância do espaço. Formado em Medicina pela UFRJ, em 1952, Roberto já se dedicava à música durante os anos de estudante. A partir da década de 1960, tornou-se o primeiro construtor brasileiro de cravos no século XX, contribuindo decisivamente para a difusão do instrumento no país. Ao longo de sua carreira, atuou como cravista e regente, realizou recitais, participou de programas de rádio, ministrou cursos e palestras e formou gerações de músicos e ouvintes.
Em fevereiro de 2025, poucos meses antes de sua morte, Roberto recebeu da Universidade Federal do Rio de Janeiro o título de Doutor Honoris Causa. A iniciativa partiu do Departamento de Instrumentos de Teclado da Escola de Música e foi aprovada pela Congregação da unidade e pelo Conselho Universitário. Na ocasião, a Universidade reconheceu uma trajetória que extrapolava a excelência como intérprete e alcançava também a construção de instrumentos, a formação musical e a difusão da música de concerto.
A Capela Magdalena ocupa lugar particular nessa trajetória. Segundo depoimentos de músicos que conviveram com Roberto, o espaço materializava seu desejo de criar, em Guaratiba, um centro dedicado ao cravo e à música antiga.
Durante décadas, a Capela recebeu recitais, concertos didáticos e atividades voltadas à formação de novos públicos. Para o professor titular da Escola de Música da UFRJ e cravista Marcelo Fagerlande, que conheceu Roberto ainda criança e foi seu aluno e amigo por mais de cinco décadas, a existência de uma formação universitária em cravo no Brasil está diretamente relacionada às sementes plantadas pelo músico.
O espaço também evidencia a multiplicidade de interesses do artista. Além de construir e decorar seus instrumentos, Roberto pintou os afrescos da Capela e criou, em um museu contíguo, maquetes de catedrais, castelos, palácios e templos. A combinação desses elementos faz com que a preservação do local não diga respeito apenas à conservação de uma edificação, mas à manutenção de um conjunto integrado de referências materiais e imateriais.
Após a morte de Roberto de Regina, o sítio onde está localizada a Capela Magdalena mudou de mãos. Parte dos objetos que integravam o acervo do espaço também recebeu diferentes destinações. Segundo informações divulgadas pela comunidade ligada ao músico, o cravo foi doado à Camerata Antiqua de Curitiba; miniaturas foram encaminhadas à Petrobras; e outros elementos, como maquetes de igrejas, templos e arquiteturas históricas, teriam sido destinados a outros espaços. Registros audiovisuais e sonoros, LPs, DVDs e figurinos também estariam assegurados.
O que permanece particularmente vulnerável é, portanto, a própria Capela: seus murais, pinturas, afrescos, elementos fixos e a ambiência construída ao longo de décadas.
Uma carta aberta divulgada em julho de 2026 chama a atenção para a necessidade de uma avaliação urgente do espaço por especialistas em patrimônio. O documento solicita vistoria técnica, inventário dos elementos existentes, documentação integral e avaliação das formas possíveis de proteção, incluindo tombamento, inventário, registro ou reconhecimento como lugar de memória.
A preocupação é evitar que intervenções realizadas antes de uma avaliação especializada provoquem perdas irreversíveis. A descaracterização, a remoção de elementos, a cobertura de pinturas ou murais, reformas ou mesmo uma mudança de uso podem comprometer características que fazem da Capela um testemunho único da história da música brasileira.
A importância da Capela Magdalena está diretamente relacionada à singularidade de seu criador. Ao longo de sua vida, Roberto de Regina reuniu atividades que normalmente aparecem separadas: foi intérprete, regente, construtor de instrumentos, professor, pesquisador e artista.
O reconhecimento recebido em vida ajuda a dimensionar esse legado. A UFRJ o homenageou com o título de Doutor Honoris Causa; a Academia Brasileira de Letras o definiu como “imortal do cravo brasileiro” e “cravista virtuoso e original”; e diferentes músicos e pesquisadores ressaltaram sua importância para a formação de novas gerações e para a consolidação da música antiga no país.
A Capela Magdalena concentra fisicamente parte desse legado. Não se trata apenas do lugar onde Roberto viveu ou onde realizou apresentações. O espaço foi concebido, construído e transformado pelo próprio artista, reunindo arquitetura, pintura, instrumentos, música e memória em uma mesma experiência.
O documentário O Cravista, dirigido e roteirizado por Luiz Eduardo Ozório, também contribui para registrar essa trajetória. Segundo o diretor, que acompanhou Roberto durante anos de pesquisa e filmagens, a Capela não funcionava apenas como cenário, mas como “personagem, arquivo vivo e extensão física” da experiência artística do músico.
Essa dimensão é particularmente importante quando se considera a relação de Roberto com o próprio instrumento que ajudou a difundir no Brasil. Para ele, o cravo dependia de uma escuta atenta e de um ambiente silencioso, capaz de revelar suas características sonoras. A Capela Magdalena foi concebida dentro dessa lógica: um lugar afastado, dedicado à escuta e ao encontro com a música.
Preservar esse espaço, portanto, significa preservar mais do que paredes e pinturas. Significa manter acessível uma parte da história da música brasileira e da trajetória de um artista cuja atuação contribuiu para modificar a relação do público e dos músicos brasileiros com o cravo e com o repertório renascentista e barroco.
A Capela Magdalena pertence juridicamente a uma propriedade privada, mas o significado de sua existência ultrapassa os limites do imóvel. Seu valor está na combinação rara entre lugar, obra artística, memória e história da música. Antes que qualquer transformação seja realizada, a comunidade cultural defende que esse patrimônio seja documentado, estudado e avaliado pelos órgãos competentes.
A preservação desse espaço pode representar, assim, não apenas uma homenagem a Roberto de Regina, mas o reconhecimento de que determinados lugares se tornam parte da memória coletiva justamente porque conseguem guardar, de forma material e singular, a história de quem os criou.
Contribua assinando o abaixo-assinado pela preservação da Capela Magdalena.