Semana de Aniversário da Escola de Música: 176 anos de história e tradição

O mês de agosto será de comemorações na Escola de Música da UFRJ. Afinal, este é o mês de aniversário da Escola, que, em 2024, completa seu 176º ano de atividades. Fundada em 1848 e denominada em encarnações passadas de Imperial Conservatório de Música, Instituto Nacional de Música e Escola Nacional de Música, é com imenso orgulho que a atual EM/UFRJ não foge à responsabilidade de ser a instituição de ensino musical mais antiga em atividade no Brasil.

É com este espírito que, entre 12 e 18 de agosto, será celebrada a Semana de Aniversário da Escola de Música da UFRJ de 2024, evento que contará com uma extensa gama de apresentações e atividades.

 

12 de agosto (segunda-feira)

Link de transmissão pelo Youtube: https://youtube.com/live/8dUN-1UU1I8?feature=share

O dia de abertura contará com uma master class gratuita, às 13h, do Sigma Project (ou seja, a soma dos talentos de Andrés Gomis, Ángel Soria, Alberto Chaves e Josetxo Silguero). O projeto é mais que um quarteto de saxofones; é um veículo imprescindível para a música instrumental do século XXI. Se o quarteto de cordas foi o instrumento por excelência nos séculos passados, o SIGMA Project, no século XXI, reivindica esse papel para o quarteto de saxofones.

No campo da música de câmara, estimularam a criação de mais de 85 obras a eles dedicadas e propiciaram as primeiras audições na Espanha de obras de compositores internacionais como Sofia Gubaidulina, Salvatore Sciarrino, Peter Eötvös, George Friedrich Haas e Hugues Dufourt.

Sua discografia está distribuída entre os mais prestigiados selos, como Mode Records (EUA), Vergo (Alemanha), Kairos (Áustria), Col Legno (Áustria) e os espanhóis IBS Classical e Orpheus Classical. O SIGMA Project desenvolve sua atividade internacional com o apoio do Instituto Nacional de Artes Cênicas e da Música do Ministério da Cultura da Espanha, o Instituto Etxepare do Departamento de Cultura do Governo Basco, a Fundação de Música Ernst von Siemens da Alemanha e Ibermúsicas.

Os interessados em se inscrever na masterclass devem enviar email para:

A partir das 19h, haverá apresentações do Grupo de Percussão da UFRJ, do time de Sopros e Percussão da Orquestra Sinfônica da UFRJ (que completa 100 anos em 2024), além da Rio Brass Band.

Criado em 2009 pelo Prof. Dr. Pedro Sá, o Grupo de Percussão da UFRJ é um dos conjuntos estáveis da EM/UFRJ. Formado por alunos, possui um repertório eclético que abrange música contemporânea, histórica e brasileira, e explora uma ampla gama de formações e timbres, incluindo a participação de outros instrumentistas convidados.

Os Sopros e Percussão da Orquestra Sinfônica da UFRJ possuem características variadas e prometem para este concerto uma homenagem aos 100 anos de estreia da obra “Octandre”, de Varése, e um marca da escrita para percussão no Brasil, a obra “Rhythmetron”, de Marlos Nobre.

Já a Rio Brass Band foi criada em 2022 por Kenneth Anderson com o objetivo de oferecer concertos variados, enriquecendo o cenário artístico local e proporcionando aos instrumentistas de metais novas oportunidades. A banda, formada por músicos da Orquestra Sinfônica Nacional, Banda Sinfônica do Corpo de Fuzileiros Navais e Orquestra Sinfônica Jovem Brasileira, combina arranjos populares e peças específicas para Brass Band. Comprometida com a inovação, mistura tradição europeia e diversidade musical brasileira em apresentações memoráveis.

 

13 de agosto (terça-feira)

Link de transmissão pelo Youtube: https://youtube.com/live/yRslZWU-k4o?feature=share

A partir das 19h da terça-feira, 13/08, o Salão Leopoldo Miguez receberá várias apresentações. Uma delas será a de Henrique Cazes, que desde 1976 exerce atividade de performance em instrumentos de cordas, com destaque para o cavaquinho, atuando também como curador, produtor musical e arranjador em diversos projetos nas áreas de choro, samba, música de concerto e música infantil. É professor no pioneiro bacharelado de cavaquinho na Escola de Música da UFRJ e exerce atividade de docência em cavaquinho e prática de conjunto em oficinas, cursos livres e festivais, dentro e fora do Brasil, trabalhando sempre para a valorização do cavaquinho e do choro.

Seus estudos sobre a obra de Pixinguinha resultaram inicialmente na “Orquestra Pixinguinha”, que recriou arranjos originais, populares e dançantes do Mestre do Choro. Mais tarde, foi convidado pelo neto de Pixinguinha para trabalhar sobre 50 melodias inéditas. Daí surgiu o projeto “Pixinguinha como Nunca”, em que assinou a produção, direção e arranjos e que se desdobrou em espetáculos e 4 álbuns lançados em 2023. Também idealizou e foi o curador do I Festival Internacional do Cavaquinho (FICAV) e participa desde 2016 do Coletivo Choro na Rua, uma iniciativa que visa levar o choro a um público maior, requalificando espaços urbanos.

Neste dia também haverá a apresentação do convidado internacional Emanuele Schillaci. Músico de formação clássica com grande paixão pela música popular brasileira e pelo violão moderno, formou-se com nota máxima no Conservatório de Música de Santa Cecília de Roma em Violão Clássico com o Maestro Arturo Tallini. Durante os anos no Conservatório, seu encontro com a música erudita estimulou a pesquisa musical além da partitura e, através de grandes nomes do violão como H. Villa Lobos e Augustin Barrios, foi transportado para o universo da América do Sul, onde aprendeu bossa nova, choro, samba e tango. Desse intenso encontro, amalgamado pelo estudo do jazz, nasceu seu repertório como violonista solo, que passeia entre a música clássica e sul-americana alternando com composições de canções originais.

O grupo Violões da UFRJ também participará da festa. Projeto de extensão criado em 2003 pelo professor Bartholomeu Wiese, o grupo lançou seu primeiro CD em 2010 e, no mesmo ano, viajou para a Espanha onde apresentou seu trabalho obtendo sucesso de público e crítica. Em 2019, foi reconhecido como Grupo Artístico de Representação Institucional da UFRJ (GARIN). Com a criação das cadeiras de bandolim e cavaquinho na EM/UFRJ, estes instrumentos foram inseridos na formação original, dando mais brasilidade ao conjunto.

O dia se encerra com o grupo In-versos, projeto que também é um GARIN. Sua proposta é resgatar a canção como poesia cantada para o âmbito dos estudos poético-literários como uma forma de compreendê-la desde o seu movimento originário, ou seja: antes da cisão entre música e poesia e que enquanto indissociáveis conformam o movimento do poético como uma unidade.

 

14 de agosto (quarta-feira)

Link de transmissão pelo Youtube: https://youtube.com/live/BWDvXF-IS1I?feature=share

As atividades do dia 14 começam às 19h com o Duo Santoro, único duo de violoncelos em atividade permanente no Brasil, que conta com Paulo e Ricardo Santoro. Ambos pertencem à Orquestra Sinfônica Brasileira e à Orquestra Sinfônica da UFRJ, e seus recitais vão do erudito ao popular.

Na sequência, Ernesto Hartmann, professor da Escola de Música da UFRJ e do Programa de Pós-Graduação em Música da UFPR, tocará Chopin e Oscar Lorenzo Fernandez no piano. Hartmann idealizou e organizou a Orquestra de Câmara da UEMG entre 2000 e 2005. Premiado no 1º Concurso SESI Minas de Composição para Orquestra em 2006, participou de festivais de música contemporânea, incluindo as Bienais da Funarte. Foi docente em instituições como UFMG, UFES, UFSCar e UFF, e coordenou cursos de música na Universidade do Vale do Rio Verde e no Conservatório de Música de Niterói.

O Duo Maria de Cavalcanti (professora de piano na UFRJ e doutora em Artes Musicais pela Louisiana State University) e Tiago Carneiro (trompista da Orquestra Sinfônica da UFRJ e da Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal do Rio de Janeiro),  foi criado para dar vida à obra “Pasárgada”, que busca representar um lugar utópico de liberdade e bem-estar através de harmonias inspiradas no jazz, e também se apresentará.

O dia segue com o Duo Adour, que conta com Andrea Adour (voz) e Fabio Adour (violão) e já possui 30 anos de atuação. Especializada em música contemporânea, a dupla já realizou diversas estreias mundiais e brasileiras de obras de variados compositores. Ambos são docentes na Escola de Música da UFRJ. Andréa Adour é professora permanente do Programa de Pós-Graduação em Música da UFRJ e do Departamento Vocal, coordena o grupo de pesquisa Africanias, e é Superintendente de Difusão Cultural do Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ. Fabio Adour é coordenador do Programa de Pós-Graduação em Música da UFRJ e do projeto de pesquisa Transcrição Auditiva; é integrante da linha Música, Educação e Diversidade e professor do Departamento de Musicologia e Educação Musical.

A próxima apresentação será a do Duo Ujakova e Alves, que conta com Tamara Ujakova no piano e Cristiano Alves na clarineta. Tamara é graduada em Piano e Órgão pela Escola de Música da UFRJ e Doutora em Música pela UNIRIO. É reconhecida por suas atuações como solista e camerista e tem se destacado na música brasileira contemporânea com turnês internacionais e participações em Bienais de Música Contemporânea. Cristiano Alves, doutor em Música pela UNICAMP e mestre pela UFRJ. Premiado em diversos concursos, participou de muitas gravações e colabora com artistas renomados da MPB.

O encerramento fica a cargo do Quinteto Experimental de Sopros da Escola de Música da UFRJ, que apresentará a “Suíte sobre temas de Luiz Gonzaga”, do Mestre Duda. Formado por alunos de graduação da EM/UFRJ inscritos na disciplina “Práticas de conjunto: conjunto de sopros”, o grupo tem por objetivo pesquisar, ensaiar e apresentar publicamente, em diversos espaços da UFRJ e fora dela, o repertório para quinteto de sopros, além de divulgar esta formação camerística tradicional na música de concerto. O projeto, criado em 2009 e coordenado atualmente por Aloysio Fagerlande e Gabriel Peter Freire, desenvolve importante trabalho na formação acadêmico-profissional dos alunos.

 

15 de agosto (quinta-feira)

Link de transmissão pelo Youtube: https://youtube.com/live/KZjexKbVPgA?feature=share

Na quinta-feira, a partir das 19h, o Salão Leopoldo Miguez será palco do recital “Eternamente: modinhas e canções dramatizadas de Antônio Carlos Gomes”. O espetáculo apresenta parte do cancioneiro do compositor brasileiro, escrito no período do Segundo Império no Brasil, e que busca trazer, através da dramatização e ressignificação de seus poemas, a crônica de costumes da época. A linha condutora do enredo é uma história romântica que apresenta conflitos sociais e individuais contextualizados na segunda metade do século XIX. Cantadas em português, italiano e francês, as canções são uma parte rica da produção deste que é o maior compositor de óperas das Américas. A direção cênica fica a cargo de Lenine dos Santos e José Henrique Moreira. O elenco contará com Thalyson Rodrigues, Carolina Morel, Dhulyan Contente Raffael Uchôa, Rodrigo Barcelos e Paulo Maria.

Lenine Santos, doutor em música pela Universidade Estadual Paulista (UNESP), é um renomado intérprete da canção brasileira. Nascido em Brasília, DF, ele estreou em ópera em 1993 no Teatro Municipal de São Paulo com “I Pagliacci” de Ruggero Leoncavallo. Desde então, tem se destacado em óperas contemporâneas e clássicas. No repertório, inclui oratórios, missas e cantatas de compositores como Bach, Mozart e Carlos Alberto Pinto da Fonseca. Sua discografia é dedicada à música brasileira, com álbuns como “XX Compositores Brasileiros” (1998), “Minhas Pobres Canções” (2006) e “Mais Caipira” (2010). Em seu pós-doutorado na UNICAMP/FAPESP, resgatou a obra do compositor Benjamin Silva Araújo.

José Henrique Moreira é diretor teatral e bacharel em Artes Cênicas – Habilitação em Direção Teatral e mestre em Teatro pela Unirio, além de doutorando em Planejamento Ambiental no PPE/COPPE (ingresso em 2016). É professor de Direção Teatral e Iluminação Cênica na Escola de Comunicação da UFRJ e coordenador do Sistema Universitário de Apoio Teatral – SUAT/UFRJ.

 

16 de agosto (sexta-feira)

Link de transmissão pelo Youtube: https://youtube.com/live/cSxeEiPEnBw?feature=share

Na sexta-feira, também a partir das 19h, é a vez do Coral Ordinariuzão se apresentar. Desdobramento do trabalho do grupo vocal Ordinarius, o conjunto apresenta um repertório de canções da MPB em arranjos originais de Augusto Ordine, passeando por gêneros como Bossa Nova, Afro Sambas, MPB mineira, entre outros. O Coral Ordinariuzão começou seus trabalhos em 2020, durante a pandemia, e manteve os dois anos iniciais em modo on-line. Desde o início de 2022, o grupo realizou diversas apresentações em espaços como o Memorial Getúlio Vargas, o Centro Cultural Acaso e Museu da República, além de ter participado do show do grupo vocal Ordinarius no Teatro Rival em 2023.

A sexta se encerra com uma apresentação do grupo feminino Octeto Oquyra. Inspiradas no grupo Oquyra, criado por Stella Junia em 1999 no Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil, que se encontra desativado desde 2010, o Octeto Oquyra foi formado em 2022 com o objetivo específico de realizar a gravação das dez obras que compõem o e-book Dádiva. O grupo é liderado pela compositora Stella Junia Ribeiro, que conta com a parceria de Marcela Gonçalves na direção musical durante a realização de seu projeto de mestrado, cujo foco é a preparação e gravação das obras selecionadas para o e-book.

 

17 de agosto (sábado)

Link de transmissão pelo Youtube: https://youtube.com/live/t–OLi3_sk8?feature=share

A partir das 18h30 do sábado, o Salão Leopoldo Miguez será palco de apresentações do Coral Infantil e do Coral Infantojuvenil da UFRJ.

Criado em 1989 pela maestrina Maria José Chevitarese, o Coral Infantil da UFRJ é hoje um grupo consolidado, já tendo se apresentado junto às principais orquestras brasileiras. O grupo que possui centenas e centenas de apresentações em seu currículo já foi regido por maestros brasileiros e estrangeiros, dentre eles Isaac Karabtchevsky, Roberto Minczuk, Jamil Maluf, Roberto Duarte, Henrique Morelenbaum, entre outros. Em 2022, a regente Juliana Melleiro assumiu o Coral Infantil da UFRJ e, desde então, tem buscado dar continuidade ao legado de excelência que já possui, executando repertórios variados e, por vezes, inéditos.

Por sua vez, o Coral Infantojuvenil da UFRJ conta com mais de 450 apresentações em seu histórico. Recentemente atuou nas comemorações do bicentenário da independência da Argentina, realizando concertos em Buenos Aires. Atuou em concerto na Sala Cecilia Meireles, com a obra Coração Concreto de Ronaldo Miranda. Participou do programa de estreia da nova temporada de Blim, Blem, Blom na Rádio MEC, com o âncora Tim Rescala, da estreia mundial da ópera A nova Roupa do Imperador, composta pelo sueco Sven Kristersson, e da estreia mundial da ópera instalação Bem no Meio, com texto de Karen Acioly e música do compositor francês Camille Rocaileux.

O encerramento será com uma apresentação do Cantus Firmus, um coral independente criado em Brasília, em 1992, pela maestrina Isabela Sekeff e que figura como um dos melhores corais da capital do Brasil. O grupo tem hoje cerca de 45 integrantes e conta com um repertório eclético e variado, indo desde canções folclóricas brasileiras e latinas à música sacra e erudita, passando pelo gospel, o jazz, a música de câmara e com especial ênfase na música brasileira.

 

18 de agosto (domingo)

Link de transmissão pelo Youtube: https://youtube.com/live/1K-JjW5JL1A?feature=share

O último dia da Semana de Aniversário (18/08) começa às 16h com o grupo Madrigal Contemporâneo, surgido da ideia de se fazer música vocal com uma formação aparentemente simples, porém com ampla experiência coral, buscando sempre uma performance de qualidade. É um grupo com gosto pelos madrigais e pela música contemporânea, principalmente a brasileira. Criado em 2008, o grupo tem se mantido ativo no cenário musical realizando concertos nas mais diversas séries e projetos, com foco a música coral brasileira. Destacam-se as participações em três edições da Bienal de Música Brasileira Contemporânea, no XXIX Panorama da Música Brasileira Atual (UFRJ), na série “Quartas Clássicas” promovida pelo BNDES, a participação na série “Concertos SESC Partituras” e na série “Sala Contemporânea”, organizada pela Sala Cecília Meireles.

Finalmente, haverá também uma apresentação do Coro Contemporâneo de Campinas, fruto da união do Maestro Angelo Fernandes com os alunos de canto, instrumento, regência e composição dos cursos de música do Instituto de Artes da UNICAMP. Guiando-se pelo desejo de disseminar a música coral em Campinas por meio de um projeto capaz de desenvolver um amplo trabalho de formação de cantores e regentes corais, o coro surgiu em 2009, com uma atuação que contempla repertório a cappella e montagem de óperas e cantatas. Concomitantemente, o grupo realiza também, pesquisas com o intuito de formar um repertório de alto nível técnico e artístico, com ênfase na música coral composta nos séculos XX e XXI.

As entradas para todos os dias são gratuitas. E as apresentações serão no Salão Leopoldo Miguez, da Escola de Música da UFRJ, que fica na Rua do Passeio, 98, próximo à estação Cinelândia do metrô.

Entre 29/07 e 02/08, a Escola de Música sediará a 2ª Maratona de Música Eletroacústica

Entre os dias 29 de julho e 2 de agosto, ocorrerá, na Escola de Música da UFRJ, a 2ª Maratona de Música Eletroacústica (Mamuse). Ao longo da semana, o Salão Leopoldo Miguez será palco de concertos de música eletroacústica em suas diversas modalidades, com obras históricas e recentes, bem como de palestras, debates e atividades de cunho educacional envolvendo a contextualização deste repertório e a montagem do sistema de difusão sonora.

As atividades transcorrerão diariamente das 10h às 18h, sob a coordenação geral dos professores Rodrigo Cicchelli e Cláudio Bezz, docentes do Setor de Composição de Música Eletroacústica do Departamento de Composição da Escola de Música da UFRJ e atuais coordenadores do Laboratório de Música e Tecnologia.

A Maratona tem por objetivos proporcionar de forma intensiva e imersiva, ao longo de uma semana, a exposição e a sensibilização dos alunos da UFRJ ao universo da Música Eletroacústica em suas diversas modalidades, bem como seu treinamento em todas as etapas da realização de concertos do gênero – da montagem à desmontagem do sistema de difusão sonora, passando pelos ensaios e pela difusão das obras em público. Além disso, a Maratona estará aberta à comunidade externa, que fruirá a apresentação das obras em concertos didáticos informados por palestras que as contextualizam, tendo por objetivo a formação de novos públicos para o gênero. É importante destacar o caráter intensivo e imersivo da iniciativa, tanto para os alunos envolvidos quanto para o público em geral, todos “maratonando” um gênero musical tão representativo da contemporaneidade.

As inscrições de alunos extensionistas (carga total 40h) devem ser feitas por solicitação enviada aos coordenadores.

Confira abaixo a programação detalhada do evento:

Dia Horários Atividade
Segunda-feira 29/07 10h-12h30 Transporte de Equipamentos do LaMuT para o Salão Leopoldo Miguez,

Montagem do Sistema de Difusão Sonora e Realização de Testes

12h30-14h Pausa de almoço
14h-18h Ensaios – Sessão 1
Terça-feira 30/07 10h-12h30 Ensaios – Sessão 2
12h30-14h Pausa de almoço
14h-16h Ensaios – Sessão 3
16h-18h Concerto 1 Ricardo dal Farra – Tierra y Sol

Jean-Claude Risset – Invisible

Denise Garcia – Trem-pássaro

Jocy de Oliveira – Ofélia presa nas cordas de um piano (Andrea Adour, soprano)

Quarta-feira 31/07 10h-12h30 Ensaios – Sessão 4
12h30-14h Pausa de almoço
14h-16h Ensaios – Sessão 5
16h-18h Concerto 2 Javier Alvarez – Temazcal (Tiago Calderano, maracas)

Rodrigo Cicchelli – Orichalque multiplié (Tiago Calderano, vibrafone) – estreia

César Traldi – Reflexos #2 (Tiago Calderano, conga)

Karlheinz Stockhausen – Kontakte

Quinta-feira 01/08 10h-12h30 Ensaios – Sessão 6
12h30-14h Pausa de almoço
14h-16h Ensaios – Sessão 7
16h-18h Concerto 3 Cláudio Bezz – Oito impressões eletroacústicas sobre um poema sujo – estreia

Dário Rocha de Melo – Atenção, senhores passageiros! – estreia

Artur Paixão – Estudo Sonoro – Praça dos Cavalinhos  – estreia

Tiê de Kühl e Machado – Passaredo – estreia

Lucas Alves – Velocidade Onírica – estreia

Dário Rocha de Melo – Fragmentos de um tubo – estreia

Ítalo Spinelli – Mefer – estreia

Vinícius Braga – Fragmentos de uma despedida – estreia

Matheus Queiroz – Mar rubro, estrelas gélidas (Matheus Queiroz, sanfona) – estreia

Sexta-feira 02/08 10h-18h Desmontagem do Sistema de Difusão Sonora,

Transporte de Equipamentos do SLM para o LaMuT e

Avaliação da II MaMusE

 

Il Néo: Projeto Ópera na UFRJ e Orquestra Sinfônica da UFRJ levam espetáculo inédito de Henrique Oswald aos palcos do Rio e Niterói

O Projeto Ópera na UFRJ e a Orquestra Sinfônica da UFRJ, com o apoio do Proart-UFRJ, levarão mais um espetáculo aos palcos do Rio e Niterói em 2024. Trata-se de “Il Néo”, uma ópera em três quadros de Henrique Oswald, que a classificou como uma “novelletta musicale”. As apresentações serão no Salão Leopoldo Miguez, na Escola de Música da UFRJ (20/6, 21/6, 22/6 e 23/6), no Centro de Tecnologia da UFRJ (25/6) e no Theatro Municipal de Niterói (27/6 e 28/6).

O espetáculo marca a estreia moderna desta criação de Henrique Oswald, escrita originalmente em 1900 e produzida somente uma vez, em maio de 1952, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, em celebração do centenário do compositor brasileiro. A relação da UFRJ com a obra vem desde essa data. É o que explica o maestro André Cardoso, diretor artístico da Orquestra Sinfônica da UFRJ:

“A primeira transmissão de rádio no Brasil ocorreu no Rio de Janeiro em 1922. Poucos anos depois, em 27 de maio de 1925, foi realizada a primeira transmissão radiofônica de uma ópera, justamente “Il Néo”, de Henrique Oswald. A transmissão foi a primeira audição da ópera, composta em 1900. O compositor, no entanto, nunca a veria encenada. A ópera subiria ao palco pela primeira vez apenas na temporada de 1952, do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, por ocasião do centenário de nascimento de Henrique Oswald. Naquela ocasião, uma presença ilustre marcou ainda mais a relação da UFRJ com a obra do compositor: os figurinos foram de autoria de Fernando Pamplona, ex-aluno e futuro professor e diretor da Escola de Belas Artes da UFRJ”.

O libreto é de Eduardo Fillipi e foi baseado no conto “La Mouche”, do dramaturgo francês Alfred de Musset (1810-1857). O título da obra se refere a uma pinta que se acharia nas espáduas de Madame de Pompadour, a cortesã francesa amante do Rei Luís XV, sendo um sinal secreto de sua beleza.

A história se passa no Palácio de Versalhes. Na trama, um corneteiro, o Cavalheiro La Blanche Meroisier, tenta ingressar no Palácio. Impedido nos portões pelo Guarda Suíço, acaba por conseguir penetrar no Trianon, pois é portador de uma mensagem do Rei para a Madame de Pompadour. Ao encontrá-la, aproveita para fazer-lhe um pedido: que interceda junto ao Rei para dar-lhe a posição de corneteiro real. Ao ler a carta, Madame desmaia, deixando cair o xale que lhe cobria os ombros, momento no qual o Cavaliere descobre a pinta. Pompadour, então, lhe avisa que divulgar esse segredo pode ser sua ruína. Ele promete conservar segredo, e a cortesã decide colocá-lo à prova, convidando-o para um baile de máscaras e usando mascarados de sua confiança para obriga-lo a confessar e ameaçá-lo. Ao final, a coragem e a discrição do Cavaliere são recompensadas.

A partitura de “Il Néo” foi recuperada a partir dos manuscritos existentes na Biblioteca Alberto Nepomuceno da Escola de Música da UFRJ e do Arquivo Nacional, um trabalho desenvolvido pelo maestro Pedro Messias em seu curso de mestrado profissional no PROMUS, sob a orientação de André Cardoso, com o apoio do Projeto Ópera da Funarte / UFRJ.

De acordo com o musicólogo Luiz Heitor Corrêa de Azevedo, “a música é deliciosa, sublinhando com ironia e emoção todas as passagens do texto”. No espetáculo serão também apresentadas outras obras do compositor para orquestra, formações de câmara e o seu cancioneiro integral. Nas apresentações, a OSUFRJ será regida pelo maestro Pedro Messias.

A direção cênica fica a cargo de José Henrique Moreira e a direção-geral é de Lenine Santos, que convida todos para o espetáculo, destacando também a celebração dos 30 anos do Projeto Ópera na UFRJ e os 100 anos da Orquestra Sinfônica da UFRJ (OSUFRJ):

“Honra, coragem, paixões, desejos, juramentos e conspirações se misturam num grande baile de máscaras para o qual todos estão convidados. Durante o baile serão também apresentados números de dança, lindas canções e música de câmara do compositor, comemorando em alto estilo o aniversário de 30 anos do Ópera na UFRJ e os 100 anos da Orquestra Sinfônica da UFRJ”, promete Lenine.

As apresentações na Escola de Música da UFRJ serão gratuitas e estão marcadas para os horários a seguir: 20/6 e 21/6 (19h); 22/6 (16h); 23/6; (17h). A EM/UFRJ fica na Rua do Passeio, 98, próximo à estação Cinelândia do metrô. Haverá retirada de senha uma hora antes de cada récita. Já a apresentação no Centro de Tecnologia da UFRJ será em 25/6, às 13h. O endereço é Av. Athos da Silveira Ramos, 149, Cidade Universitária.

Projeto Ópera na UFRJ

Fruto de uma parceria que envolve a Escola de Música, a Escola de Comunicação, a Escola de Belas Artes e o Fórum de Ciência e Cultura, o Projeto Ópera na UFRJ, que completa em 2024 seus 30 anos, integra professores e alunos de áreas como artes cênicas, cenografia, direção teatral, figurino, indumentária, música, produção, visagismo, regência coral e orquestral, além da Orquestra Sinfônica da UFRJ.

O Projeto Ópera na UFRJ une-se para essa produção ao Projeto Sinos, resultado da parceria Arte de Toda Gente, entre a Funarte e a UFRJ.

A iniciativa também conta com o apoio de: ABM; Casa da Ciência; Circuito Proart; Faperj; Música Brasilis; Politécnica UFRJ; PPGM; Promus; Rádio MEC; SUAT; UFJF/ Pró-Música.

IL NÉO

Música: Henrique Oswald (1852-1931)

Libreto: Eduardo Fillipi

Baseada em um conto de Alfred de Musset

Equipe e Elenco

Regência: Pedro Messias (Orquestra Sinfônica da UFRJ)

Direção: José Henrique Moreira

Direção Geral: Lenine Santos

Direção de Extensão: Homero Velho

Direção junto à PROART: Andrea Adour

QUADRO I

Cavalheiro La Blanche Meroisier: Rodrigo Barcelos/ Robson Lemos

Madame Pompadour: Amanda Ayres/Dhulyan Contente

Guarda Suíço: Gilson Bender/Felipe Corrêa

Jovem Pajem: Julia Riera/Isabela Peralta

Pagem (soprano): Carla Garcia/Bruna Contino

Pagem (mezzo): Daniela Moreira/Thaisa Bastos

Valete (tenor): Raffael Uchoa/André Hipolito

Valete (B. Bar): Bernardo Rulff/Moisés Ribeiro

Cidadão (tenor): André Cisco / Marcus Vinícius Lima

Cidadão (B. Bar.): Dayvid Lucas/Harley Guirado

QUADRO II

Cavalheiro: Rodrigo Barcelos/Robson Lemos

Madame: Amanda Ayres/Dhulyan Contente

QUADRO III

Cavalheiro: Rodrigo Barcelos/Robson Lemos

Madame: Amanda Ayres/Dhulyan Contente

Mago: Gilson Bender/Felipe Corrêa

Folia: Julia Riera/Isabela Peralta

Fada (soprano): Carla Garcia/Bruna Contino

Fada (mezzo): Daniela Moreira/Thaissa Bastos

Harpia (tenor): Raffael Uchoa/André Hipolito

Harpia (B. Bar): Bernardo Rulff/Moisés Ribeiro

Demônio (tenor): Marcus Vinícius Lima/André Cisco

Demônio (B. Bar.): Dayvid Lucas/Harley Guirado

Equipe Técnica:

• Orquestra Sinfônica da UFRJ: Direção geral – André Cardoso.

• Figurino: Coordenação – Prof. Leonardo de Jesus. Criação: Nicolas Pereira Rodrigues e Clara Lima Silvestre. Equipe: Denise Silva, ⁠Raphaela Miguel, Lorena Couto, Laura Seixas, Caio Santos, Raquel Costa, Giulliana Pando, Camila Landim e Natali Souza.

• Cenografia: Coordenação – Profa Andréa Renk. Equipe: Christopher Munford, Felipe Eduardo Stein, Bianca Perrone, Gilson Motta, Maria Elisa.

• Dança: Orientação e coreografia – Profa Lígia Tourinho e Aruã Galileu. Corpo de baile: Alec Vasconcelos, Aruam Galileu, Bel Araújo, Daniel Monteiro, Jard, Letícia Viana, Luana Buscacio, Naomi Elisha Wiener, Rayan Pires, Ronábio Lima.

• Assistente de direção: Azul Scorzelli

• Direção de corpo e movimento: Marcellus Ferreira

• Pianistas: Leandra Vital, Thalyson Rodrigues, José Sacramento, Renan Santos e Rodrigo César Aranha.

• Produção executiva: Fabrícia Medeiros e André Garcez

• Direção Geral: Lenine Santos.

• Direção de Extensão: Homero Velho

• Direção PROART: Andrea Adour

• Legendas: Jonathan Dias e Lenine Santos

• Traduções: Lenine Santos

• Cenotécnica: Humberto Júnior

• Luz, gravação e transmissões por streaming: SUAT – José Henrique Moreira.

Agradecimentos:

Rosana Lanzelote

José Staneck

PROGRAMA

1. Madame Pompadour (Oswaldo Santiago/Paulo Barbosa) Intérpretes: André Hipolito e Raffael Uchôa (tenores), Bernardo Januzzi (violão) e Victor Santos (flauta).

2. Élégie (H. Osvald) Intérpretes: Bernardo Januzzi (violão) e Victor Santos (flauta).

3. Escultura (Adelino Moreira) Intérpretes: Marcos Vinícius Lima e André Cisco

4. AVE! – Intérpretes: Carla Garcia e Bruna Contino.

5. Élégie Intérpretes: Bernardo Januzzi (violão) e Victor Santos (flauta).

6. AOS SINOS! / Intérpretes: Thaissa Bastos e Daniela Moreira.

7. MINHA ESTRELA – Intérpretes: Bernardo Rulff e Moises Ribeiro.

8. Il NÉO – QUADRO I

9. Guarda come dinanzi a te [Ciclo ‘Ofélia’] Intérpretes: Raffael Uchoa e André: Cisco.

10. Amore, amore [Ciclo ‘Ofélia’] Intérpretes: Dayvid lucas e Harley Guirado

11. Scrosciate uragani [Ciclo ‘Ofélia’] Intérpretes: André Cisco e Marcus Vinícius Lima.

12. Minueto op. 23 Número 1

13. IL NÉO – QUADRO II

14. L’Angelo del Cimitero [Ciclo ‘Ofélia’]

15. La Morta [Ciclo ‘Ofélia’] Intérpretes: Thaissa Bastos e Daniela Moreira.

16. Gavota op. 2 Número 8

17. IL NÉO – QUADRO III

Pianistas nas canções: Thalyson Rodrigues, Leandra Vital, José Eduardo Sacramento, Renan Santos e Rodrigo César Aranha

Professor Marcelo Fagerlande comenta sobre a edição de vinte anos da Semana do Cravo

Tendo completado neste ano duas décadas de existência, a Semana do Cravo tem sido, desde 2004, um espaço único para o intercâmbio artístico e acadêmico no campo do cravo. Organizado pelo cravista e professor Marcelo Fagerlande, da Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro, o evento reuniu, no mês de abril, professores e alunos de diversas instituições brasileiras que oferecem o ensino do instrumento.

Durante os dias 24, 25 e 26 de abril, a EM/UFRJ foi o epicentro das atividades, que incluíram mesas-redondas dedicadas ao ensino do cravo, recitais de jovens talentos, e o lançamento de um volume comemorativo contendo a tradução para o português do “Método de Baixo Contínuo ao Cravo”, de L. Bourmayan e J. Frisch. Esta obra, agora disponível gratuitamente em formato impresso e digital, representa um marco significativo para a comunidade cravística brasileira, graças aos esforços de uma equipe de renomados profissionais, incluindo Fagerlande, Mayra Pereira, Maria Aida Barroso, Luciana Camara, Daniele Barros e Ilma Lira.

Entre os destaques das discussões deste ano, estiveram temas relacionados ao ensino do cravo, incluindo debates sobre práticas pedagógicas e a integração do instrumento no contexto brasileiro. A professora Patricia Michelini Aguilar, coordenadora do Promus (Programa de Pós-graduação Profissional em Música da UFRJ), entrevistou o professor Marcelo Fagerlande para saber um pouco mais sobre a Semana do Cravo de 2024.

Confira:

Patricia Aguilar: Professor Fagerlande, a Semana do Cravo deste ano recebeu participantes de várias cidades do Brasil. Poderia nos falar um pouco sobre a diversidade de origens dos participantes?

Marcelo Fagerlande: Contamos com a participação de professores e alunos vindos, além do Rio, de São Paulo, Campinas, Tatuí (SP), Recife, Juiz de Fora, Belo Horizonte, Goiânia e Brasília. É uma amostra bastante significativa dos lugares no Brasil onde se ensina cravo no país.

Patricia Aguilar: Quanto às atividades realizadas durante a Semana do Cravo, poderia destacar algumas delas?

Marcelo Fagerlande: Nós tivemos o formato habitual das Semanas do Cravo, com mesas redondas com os professores e recitais com os alunos das respectivas instituições. Normalmente, as mesas estão relacionadas aos temas que os professores pesquisam. Mas nesta edição, com exceção de uma única mesa relacionada ao cravo e música barroca, em todas as outras mesas, nós tivemos interessantíssimas discussões sobre a prática do ensino de cravo, seja em universidades brasileiras ou nas instituições de ensino médio. Isso foi muito importante porque, na verdade, a Semana do Cravo é um congresso de cravistas. Trata-se do único fórum no Brasil no qual a gente se encontra e debate questões importantes para nós. E essa questão do ensino já tinha acontecido, embora de maneira mais tênue em anos anteriores. Assim, eu achei que, nos 20 anos da semana, era importante a gente parar, sentar e discutir, trocar informações sobre o que nos aflige, quais são as dificuldades que nós enfrentamos, quais são as soluções que, eventualmente, a gente encontra para solucionar os problemas ou não.

Tivemos retornos superinteressantes e mesmo emocionantes, não só de pessoas menos experientes, como de pessoas muito experientes, que mencionam o quanto foi importante a Semana do Cravo de 2024 para que sejam sugeridas novas mudanças, novas propostas para currículos. Isso aconteceu agora, recentemente, com a professora Helena Jank, da Unicamp. Mas não só com ela. Tenho ouvido de vários colegas o quanto essas discussões foram frutíferas.

Acho que podemos considerar que os nossos objetivos foram alcançados agora. É claro que tem muito trabalho pela frente sempre, porque a gente enfrenta problemas sérios, mas unidos, trocando ideias e discutindo, pensando nas soluções, a gente certamente acha um caminho melhor para o Cravo e para o seu ensino no Brasil.

Patricia Aguilar: Quais foram os destaques em relação às apresentações ocorridas no evento?

Marcelo Fagerlande: É muito bonito podermos observar uma diversidade muito grande entre os alunos. Contamos com a participação de alunos de todo tipo de origem, de todo tipo de bagagem. Não é à toa que escolhemos como arte para a divulgação da vigésima semana justamente um patchwork com a silhueta de um cravo. Isso mostra que o denominador comum entre nós é o cravo, mas a nossa bagagem é muito ampla e diferente entre cada um de nós, tanto professores quanto alunos. E isso ficou evidente nos recitais. O repertório de cravo é tão imenso, é tão grande, que a gente raramente tem repetição de uma mesma obra. Os programas, por exemplo, são propostos pelos próprios alunos. E seus professores enviam para a gente, através das inscrições. E em 99,9% das vezes, a gente não tem repetição de obra, o que é uma coisa bem interessante. Como eu disse, isso ilustra como o repertório de cravo é um repertório imenso. Eu gostaria também de destacar que a gente teve, dessa vez, uma participação muito especial do Camerata de Cordas da UFRJ, dirigida pelo nosso colega Fernando Pereira. É uma meninada super animada que, tocando bem, colaborou com a Michele, que é a nossa aluna, agora no mestrado (PROMUS). Foi apresentado um concerto de Bach para cravo e cordas. Foi muito bonito. Esse foi o encerramento da semana.

Em relação às dificuldades, e eu não estou falando de 2024, mas também me referindo aos 100 anos que a gente pesquisou durante o século XX, uma delas é que o cravo é sempre anunciado como uma novidade, como alguma coisa exótica. É incrível como mesmo em 2024, depois do trabalho de tanta gente no Brasil, divulgando, tocando e ensinando cravo, ele ainda seja um instrumento desconhecido. Isso é curioso já que, na verdade, ele é um instrumento que está presente na história da música pelo menos de 1600 a 1800. É difícil você falar de um grande compositor dessa época que não tenha escrito para cravo, ou que ele próprio não tenha sido cravista. E aí eu cito simplesmente Bach, Scarlatti, Handel, Couperin, Rameau, entre outros. É incrível como, mesmo hoje em dia, o instrumento desses compositores não só é desconhecido, como muitas vezes não é valorizado. Em função disso, a gente sempre precisa fazer esse trabalho de divulgação. Por outro lado, a visita, sobretudo de muitos alunos de fora do estado participando dos debates e das mesas contribui para que o instrumento fique cada vez mais conhecido, e consequentemente, cada vez sofra menos preconceito.

Patricia Aguilar: Por fim, o que o senhor destacaria como comentário geral sobre a Semana do Cravo deste ano?

Marcelo Fagerlande: Por fim, o comentário geral que eu gostaria de fazer é que, embora tenhamos recebido financiamento da Faperj este ano, o fato que possibilita a realização deste evento há 20 anos é a adesão de todos, dos professores e colegas de fora. E, se não fosse isso, a gente não teria um evento com tanto sucesso, posso dizer sem falsa modéstia, porque, desde o início, isso aconteceu, tendo a gente verbas pomposas ou verbas mais magras. Mas sempre houve adesão dos colegas de fora e, consequentemente, dos seus alunos. Então, isso é o que faz com que a semana persista e que seja um sucesso e que atraia tanta gente. A semana sempre atraiu gente e eu espero que continue atraindo. E eu sempre agradeço à Escola de Música, aos programas de pós-graduação, pelo apoio e aos colegas do Ventura. É uma união de esforços para que funcione.

Eu não podia deixar de mencionar também o lançamento do Método de Baixo Contínuo, de Frisch, como um motivo de comemoração para todos nós. Essa tradução do original francês para o português, com a publicação de vários exemplares impressos que foram distribuídos gratuitamente na Semana por conta de um patrocínio da Capes, representa uma conquista significativa. E ter disponibilizado o material para download gratuito nos sites dos programas de pós-graduação também é um motivo de muita felicidade. Trata-se de uma obra importante não só para quem faz cravo, baixo contínuo, mas para quem estuda música barroca de um modo geral e mesmo harmonia. É uma forma incrível de estudar harmonia ao teclado. Já tivemos muito retorno de pessoas que sempre tiveram interesse e que já estão agora baixando o material. Esperamos que isso continue e que seja uma ferramenta que auxilie bastante os interessados no assunto.

Escola de Música entrevista o maestro e compositor colombiano Rubén Darío Gómez Prada

Entre os dias 20 e 27 de maio, a Escola de Música da UFRJ receberá o maestro e compositor colombiano Rubén Darío Gómez Prada, diretor do programa de bandas da Southern Illinois University-Edwardsville (EUA) para uma intensa agenda de atividades junto ao Projeto de Extensão Sistema Pedagógico de Apoio às Bandas de Música.

Em 20/05, Rubén dará aulas de regência para a classe de Regência de Banda, bem como para as classes de Introdução à Regência. Em 22/05, o maestro oferecerá uma oficina de composição para banda sinfônica, a qual contará com a coordenação do professor Liduino Pitombeira. Em ambos os dias, bem como em 23/05, Rubén estará também envolvido nos ensaios da Orquestra de Sopros da UFRJ. Finalmente, para completar as atividades, no dia 27, às 19h, o maestro regerá a Orquestra de Sopros da UFRJ no Salão Leopoldo Miguez num concerto que contará com obras do repertório contemporâneo para banda sinfônica.

Além de gratuito, o concerto em questão integrará a campanha de solidariedade com a população impactada pelas enchentes no Rio Grande do Sul. Serão aceitas doações de itens como: água mineral; alimentos não perecíveis; itens de higiene e limpeza; botas e roupas impermeáveis para equipe de salvamento; roupas e calçados limpos e em bom estado de conservação; colchonetes e cobertores; além de ração para cães e gatos.

Por conta de sua visita ao Rio, os professores da Escola de Música da UFRJ, Marcelo Jardim e Gabriel Dellatorre, fizeram uma entrevista com o maestro. Confira:

Marcelo Jardim: Rubén, nos conhecemos há praticamente duas décadas e digo que é um imenso prazer recebê-lo como professor convidado em nossa Escola de Música da UFRJ. Conte-nos um pouco da sua trajetória com o trabalho com as bandas, desde a Colômbia até os dias atuais.

Rubén Darío Gómez: O prazer é meu também, Marcelo. Meu primeiro instrumento foi a clarineta, quando comecei a tocar na banda da minha universidade, em Bucaramanga, Colômbia. Em 1998 ingressei no Ministério da Cultura como conselheiro para as atividades vinculadas às bandas e atuei nas áreas de teoria musical e regência. Em 2003 comecei a escrever obras especificamente para bandas sinfônicas e desde então não parei de compor para as diversas formações das bandas. Entre 2003 e 2015 atuei na regência de diversas bandas na minha cidade, incluindo a banda da minha própria escola de música (uma banda infantojuvenil) e a banda da universidade onde eu trabalhava, formada basicamente por estudantes de música. Em 2015 fui para os Estados Unidos, onde fixei residência, fiz mestrado e doutorado em regência de banda, além de me dedicar mais ao estudo de composição. Foi uma grande mudança em minha vida, e desde 2020 sou o Band Director, coordenador das atividades de bandas, da Southern Illinois University-Edwardsville. Minhas funções na universidade incluem a regência e coordenação musical da wind ensemble (orquestra de sopros) e das aulas de regência para alunos de graduação e pós-graduação. Também sou regente assistente da Banda Municipal de Edwardsville e regente associado da Saint Louis Wind Symphony.

MJ: O que você planejou para as atividades que irá desenvolver aqui, com nossos estudantes da EM/UFRJ?

RDG: Temos várias ações para esta semana. Para a Orquestra de Sopros da UFRJ, que é um grupo de alunos avançados e com experiência na prática de banda sinfônica, pretendo fazer uma programação com obras de compositores dos Estados Unidos e algumas de minhas composições. Conforme conversamos, em nossa troca de informação que antecede a esta programação, minha ideia foi a de expor os alunos ao contato de obras de compositores que podem ser desconhecidos para eles, como Julie Giroux ou David Maslanka, mas que são de grande importância para o universo das bandas atuais, bem como a oferecer a todos os estudantes da banda a oportunidade em trabalhar com um compositor-regente, o que é uma experiência sempre gratificante para ambos os lados.

Para os alunos de regência, planejei dois workshops de regência de banda, um para os alunos de regência de banda, diretamente, e outro, aberto a todos os estudantes com interesse em regência, de uma forma geral. Nestes workshops, poderemos trabalhar alguns aspectos de técnica de regência, interpretação e estudo da partitura. Pretendo também trabalhar com algumas obras padrão do repertório da banda universal que são de estudo obrigatório para todos os regentes.

Haverá uma outra atividade ainda, em formato de palestra, sobre repertório para bandas de compositores latino-americanos, no qual vou abordar também o tema sobre composição para bandas. Nesta palestra apresentaremos obras de compositores historicamente importantes, bem como algumas obras mais recentes de compositores mais jovens.

Gabriel Dellatorre: Rubén, eu atuo bastante com grupos jovens, com edição de partituras e percebo ainda um longo caminho no Brasil para uma melhor compreensão sobre a questão do nivelamento técnico para as composições. O que você poderia falar sobre este ponto, na organização pedagógica por níveis de dificuldade, na escrita para as bandas?

RDG: Gabriel, excelente ponto e para o qual precisamos dar toda a atenção. Quando o repertório é organizado por níveis de dificuldade, toda a organização e planejamento do trabalho fica mais sistemático e o progresso dos alunos pode ter um melhor acompanhamento. O repertório, quando escrito levando-se em consideração o nível técnico a que se pretende, permite explorar o potencial interpretativo dos alunos porque quando as obras estão ao nível dos alunos e os aspectos técnicos podem ser vencidos com alguma facilidade, o regente ou o educador musical pode explorar aspectos interpretativos ou técnicos que seriam impossíveis de se alcançar com obras que ultrapassem as capacidades técnicas musicais dos estudantes.

Outra vantagem do repertório classificado por níveis técnicos é que os regentes e gestores de projetos podem encomendar obras de acordo com as habilidades musicais de seus alunos, tendo a certeza de que as obras poderão ser executadas de forma adequada. Isso favorece o crescimento do repertório e quando as obras são efetivas, significa também que outras bandas podem programá-las, favorecendo a circulação da música deste compositor.

GD: Foi uma experiência muito gratificante ter sido o preparador do grupo para este concerto, pois tive um contato direto com duas de tuas obras, Latinoamerica Despierta e Montaña Mágica, e vou poder te acompanhar no prosseguimento a esta preparação inicial. Gostaria que você falasse um poco sobre elas.

Fico feliz que tenha gostado de trabalhar as duas obras com o grupo, Gabriel. Latinoamerica Despierta foi escrita em 2020 para comemorar o 50º aniversário da banda Boston Winds, sediada na cidade de Boston, nos Estados Unidos. A obra é baseada nos movimentos de protesto social que ocorreram em diversos países da América Latina, os quais sofreram por anos com governos que procuram apenas o benefício de pequenos grupos e enriquecimento pessoal em detrimento de encontrarem soluções para os problemas do cotidiano da população, o que resultou em pobreza e sofrimento. Diante desta situação, o povo procurou sempre se manifestar e, em alguns casos, ‘acordou’ e conseguiu estabelecer governos mais justos e socialmente responsáveis, e que não se posicionam somente do lado dos poderosos. A Montaña Mágica (A Montanha Mágica) é inspirado em um lugar muito bonito, com uma imponente montanha, localizado no município de Santa Elena, no Departamento de Antioquia e muito próximo da cidade de Medellín. Conheci esse lugar em 2006 e ali encontrei tranquilidade, paz e… silêncio. Depois de passar alguns dias lá, me senti impelido a escrever sobre a experiência que tive e decidi que deveria escrever uma obra que pudesse retratá-la musicalmente.

MJ: Ruben, você estará conosco na Escola de Música da UFRJ, que é a mais antiga instituição oficial de música fundada no Brasil, e que formou várias gerações de músicos. O curso de regência de banda que temos é relativamente novo, mas foi o primeiro curso de bacharelado em regência de banda em uma universidade federal no Brasil, e em um país com milhares de bandas de música e bandas sinfônicas. Qual conselho você daria aos estudantes de regência e novos regentes que planejam se tornar regentes de bandas ou orquestras?

RDG: O principal conselho que é: prepare-se muito bem para cada momento que estiver a frente de uma banda, orquestra ou coro. Os músicos com os quais atuamos e a música que dirigimos merecem todo nosso respeito e a forma de demonstrarmos isso é com a nossa melhor preparação. E a preparação não deve ser somente na parte técnica da regência (gestual) mas principalmente nos aspectos intelectuais. Estudar a partitura, conhecer a história da música, a orquestração, os princípios da afinação, o equilíbrio, o treinamento auditivo para que se possa ouvir muito bem o que vem do grupo musical e poder oferecer ajuda em todos os aspectos da música, tudo isso faz parte da preparação intelectual do regente.

Procure conhecer e se familiarizar sobre estilos musicais diversos, para que possa conhecer e reconhecer que tipo de estilo tem a música que irá ser preparada e como atingir o melhor resultado desse estilo na prática de conjunto. As músicas não precisam soar iguais, pois se diferem em forma, estrutura e estilo e o regente que se familiariza com o maior número possível de estilos musicais terá maior capacidade em desenvolver trabalhos mais direcionados na preparação de cada obra musical.

Adquira e desenvolva uma boa bagagem de ferramentas pedagógicas. Este aspecto da preparação do regente precisa ser observado com cuidado e perseverança, pois isso não é conquistado da noite para o dia, e é algo que se consegue com o tempo, através de experimentação, pesquisa e contato com colegas, professores e especialistas. Devemos ter ferramentas pedagógicas precisas para cada situação, para cada tipo de formação musical e muitas vezes, especificamente, para cada grupo musical. Vários são os fatores que nos obrigam a dispor de diferentes abordagens pedagógicas, tais como idade média do grupo, nível mediano de preparação musical, tamanho e tipo de formação, instrumental etc.

Esteja preparado para todos os diferentes contextos e situações (favoráveis ou desfavoráveis), quando for atuar como regente, seja em uma escola ou em um grupo avançado. É sempre muito difícil para os regentes preverem o que pode ocorrer em uma preparação musical. Por fim, uma dica valiosa: fale sempre com os músicos em uma linguagem positiva. Mesmo quando as coisas aparentemente não parecem ir bem, há sempre uma maneira positiva de lidar com cada situação. Nenhum músico quer ser tratado de forma desrespeitosa e se sentir desqualificado. Assim, pense antes de tomar uma atitude que pode provocar uma ruptura no trabalho em equipe, e procure sempre encontrar uma forma criativa e positiva de dizer o que é necessário.

A Música como vocação: histórias inspiradoras dos alunos da EM/UFRJ

A busca por uma formação acadêmica na área de Música é uma decisão pessoal e apaixonada, muitas vezes movida por uma identificação profunda com a arte e com o desejo de compartilhar essa paixão com o mundo. Muitos aspiram a carreiras como intérpretes de destaque em orquestras, grupos de câmara ou como solistas de renome. Para outros, a educação musical é o chamado, com o desejo de compartilhar seu conhecimento com as futuras gerações.

Devido à sua excelência acadêmica e ao comprometimento com um desenvolvimento musical abrangente, a Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro representa há 175 anos um verdadeiro farol para aqueles que desejam transformar esse sentimento em uma carreira sólida e gratificante. Suas salas e corredores reverberam uma rica diversidade de acordes e ritmos, refletindo as diferentes especializações oferecidas. Seja na graduação, abrangendo instrumentos clássicos, canto, composição, regência e musicoterapia, ou em seus dois programas de pós-graduação — Programa de Pós-Graduação da Escola de Música (PPGM); e Programa de Pós-Graduação Profissional em Música (PROMUS) — a EM/UFRJ atrai uma ampla gama de estudantes.

Mas se o amor pela música é o motor inicial, nossos universitários definitivamente não estão alheios aos desafios do mercado de trabalho. O cenário musical está em constante transformação, exigindo dos músicos não apenas versatilidade, mas também determinação sem precedentes. Assim, não é raro se deparar com alunos cujas histórias de vida são marcadas pela superação de desafios, por tropeços e recomeços, bem como pela busca incansável pelo aprimoramento.

Cecília Fabião, por exemplo, de Engenharia a Piano, seguiu sua paixão depois de uma reviravolta na pandemia, ressaltando como hoje a música a faz sentir completa. Patrícia Espinoza, de Relações Internacionais a Regência, encontrou uma ligação entre a diplomacia e a Música, e futuramente espera inspirar mais mulheres a ingressarem na área. Já o músico moçambicano Feliciano Comé superou uma odisseia repleta de obstáculos antes de finalmente encontrar na UFRJ o lugar para ver seu sonho florescer. Os três compartilharam um pouco sobre suas trajetórias de vida, suas motivações na área musical, seus anseios e seus caminhos até a nossa Escola.

Das engrenagens da Engenharia às teclas do piano

Esse caminho nem sempre é algo linear e muitas vezes está repleto de desvios de percurso. Exemplo disso é a vivência acadêmica de Cecília Fabião, de 21 anos, que cursa o quarto período do bacharelado em Piano na EM/UFRJ. Após ser admitida no vestibular de Engenharia, a jovem iniciou seus estudos com perspectivas promissoras na Universidade Federal de Juiz de Fora, em 2020. No entanto, o turbilhão da pandemia deu uma guinada inesperada em seu trajeto. Enquanto a incerteza pairava, ela começou a questionar o verdadeiro significado de sua jornada e o que a movia de fato. Não apenas em termos de futuras conquistas financeiras, mas acima de tudo o que realmente a fazia sentir-se completa. “Teve um dia em que eu simplesmente disse: Não é isso que eu quero!”, lembra Cecília.

Essa epifania surgiu como uma revelação clara de que, se nada fizesse, no futuro lamentaria profundamente não ter seguido sua paixão pela Música. “Um pensamento veio muito espontaneamente na minha cabeça de que eu iria me arrepender muito quando eu chegasse ao fim da minha vida e eu não tivesse vivido da música”, desabafa. A partir dessa virada de chave, tomou uma decisão que impactaria seu futuro. Largaria a Engenharia e recomeçaria seus estudos para realizar um novo ENEM e para preparar-se para o Teste de Habilidade Específica (THE) em busca de seu lugar na Escola de Música da UFRJ.

A decisão, segundo ela, foi certeira. “Estou muito feliz porque eu descobri que realmente é isso que me move, que me dá ânimo”, diz Cecília antes de completar: “Estou na Escola de Música e não me vejo fazendo outra coisa, pois tocar piano pra mim é o que mais faz sentido”. Em sua visão, a EM/UFRJ oferece um vasto leque de oportunidades aos alunos permitindo-lhes tocar ao lado de músicos renomados, nacionais e internacionais, propiciando a ela e seus colegas contato com diferentes perspectivas culturais e musicais que muito agregam em sua formação.

Quanto ao futuro, Cecília já planeja expandir seus horizontes após a graduação, considerando a possibilidade de buscar um mestrado fora do Brasil. A UFRJ, através de suas parcerias institucionais, se apresenta como um facilitador para alcançar esse objetivo. Ela também destaca a importância do curso não apenas aprimorar suas habilidades como intérprete, mas também prepará-la para o ensino. E enfatiza estar adquirindo bagagem não apenas como música, mas como educadora também.

“Dar aula é uma carta na manga imprescindível não só por trazer uma estabilidade financeira, mas porque lecionar não é só ensinar, é também aprender”, comenta a jovem, já vislumbrando o conhecimento que poderá vir a adquirir com seus futuros alunos caso a docência cruze seu destino.

A diplomacia musical

As mudanças de rumo também são familiares a Patrícia Espinoza, de 25 anos, que cursa o segundo período de Regência Orquestral na EM/UFRJ. A jovem começou sua jornada acadêmica no mundo das Relações Internacionais, mas uma paixão latente pela Música sempre a acompanhou, mesmo depois de concluir sua formação como internacionalista.

Ao refletir sobre a importância que dava à Música, Patrícia se deu conta de que isso não era mais apenas um hobby, mas algo que desejava que fizesse parte de sua vida de forma profissional. Foi quando repensou seu caminho. A transição, contudo, não foi desprovida de incertezas. “Eu tive um certo receio antes de tomar a decisão de estudar Música com um olhar mais profissional, primeiro porque eu não venho de uma família de músicos e muito menos conhecia outros músicos, então não sabia muito bem o que fazer ou qual caminho seguir”, confessa.

Sem conexões musicais preexistentes, ela conta que buscou conselhos de professores de piano e explorou diferentes possibilidades antes de se decidir. “Cheguei a cogitar cursar bacharelado em Piano, que também sempre foi uma paixão minha e ainda é, mas quando comecei a pesquisar sobre os demais cursos e vi a grade de Regência na UFRJ, eu fiquei encantada tanto pela sua prática musical quanto pela possibilidade de ter uma maior visão sobre vários aspectos diferentes da Música”, lembra.

A virada veio quando Patrícia assistiu a ensaios do Maestro Roberto Duarte regendo a Orquestra Jovem de Niterói. O encontro com a prática da regência e o incentivo de músicos e professores lhe encheram de coragem e a fizeram perceber que o caminho da mudança era o correto a seguir.

A transição de Relações Internacionais para Regência pode parecer incomum à primeira vista. Mas a jovem rapidamente encontrou uma ligação surpreendente entre as duas áreas, abraçando a ideia da diplomacia musical. “É muito engraçado como eu vejo agora muitas semelhanças entre essas duas profissões, porque no final das contas a gente aprende nas Relações Internacionais que o diplomata tem a missão de mediar acordos para representar os interesses de seu país no exterior e a arte da Regência não é muito diferente, já que a função do regente é conduzir um grupo de músicos a fim de tentar transmitir as intenções de uma determinada obra e compositor”, explica. “O que muda é o tipo de harmonia que a gente busca”, completa a estudante.

Quanto às expectativas profissionais, Patrícia adoraria ter a oportunidade de tocar em algumas orquestras que admira desde jovem tanto no Brasil quanto no exterior. Atenta à necessidade de promover maior diversidade e inclusão nesse campo, ela também comenta que gostaria de “incentivar mais mulheres a buscarem seu espaço nesse mercado”.

Satisfeita com o percurso que está trilhando, a universitária deixa uma lição de convicção aos que buscam uma transição acadêmica ou mesmo uma nova formação. “Não me arrependo nem um pouco da minha escolha e estou adorando poder aprender mais não apenas sobre o meu instrumento e os diversos outros dentro de uma orquestra, mas também sobre o que fazer para não reger nenhuma guerra”, brinca a jovem sem esconder sua veia diplomática.

Do Sudeste africano ao Sudeste brasileiro

Já para Feliciano de Castro Comé, um talentoso músico moçambicano de 43 anos que atualmente cursa o segundo período do mestrado em Regência, a jornada até a EM/UFRJ foi repleta de obstáculos que não apenas testaram sua resiliência, mas também o levaram a encontrar um lugar onde seu sonho pudesse florescer. Após concluir em 2010 sua licenciatura em Música na Universidade Eduardo Mondlane (UEM), em Moçambique, ele trabalhou como professor na mesma instituição ministrando aulas de Análise e Técnicas de Composição e Seminário sobre Composição.

O desejo de expandir seus horizontes acadêmicos sempre o acompanhou. Havia, porém, um complicador geográfico a ser superado. “Embora tivesse necessidade de uma ampliação na minha formação, isso era algo impossível no meu país uma vez que lá não existem cursos de pós-graduação em Música”, explica.

De lá para cá, o músico travou uma verdadeira odisseia para dar continuidade aos seus estudos. A primeira chance foi em 2011 na Universidade de Aveiro, em Portugal, na área de Regência Coral, mas circunstâncias e desafios imprevistos se interpuseram em seu caminho. Em 2020 concorreu a uma vaga de mestrado em Regência na Universidad Nacional de las Artes, na Argentina. Veio então a pandemia e a turma não avançou. Meses depois o moçambicano tentou pela primeira vez o caminho do Brasil. Concorreu a uma vaga na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), mas não obteve sucesso.

No fim do fatídico ano, o músico ainda tentaria uma oportunidade na Bélgica, mas, às vésperas do exame, recebeu a informação que lhe caiu como um balde de água fria. “Não fui fazer a prova porque devia ser presencial, mas só tive acesso a essa informação quando faltava apenas uma semana para o exame”, disse o músico. “Eles provavelmente pensaram que eu estivesse naquele país”.

Determinado, Feliciano não hesitou. Foi em frente. Em 2021 foi aprovado no curso de mestrado em regência na UFRN e em janeiro do ano seguinte deu início aos seus estudos de forma remota. Percebendo que em algum momento precisaria estar no Brasil, solicitou então autorização para se afastar de suas funções na UEM, de Moçambique, onde, para além de professor, era também já diretor do curso de licenciatura em Música desde 2015.

Junto à permissão, veio a má notícia: devido às restrições orçamentárias em seu país, ele não contaria com apoio financeiro para seus estudos no Brasil. Para complicar tudo mais um pouco, superadas as restrições sanitárias da covid-19, as aulas do segundo semestre na UFRN voltavam agora ao regime presencial. “Aí fiquei em pânico porque não tinha como sair do meu país para seguir com os estudos e já não estava mais trabalhando”, conta o aguerrido músico que, à época, chegou a apresentar um quadro inicial de depressão.

No limiar de desistir de seu objetivo, Feliciano fez sua última tentativa. “Quando já não tinha mais esperanças e inclusive pensava em desistir de lutar por este sonho de estudar Regência, eis que numa atitude de puro desespero naveguei no Google e casualmente me deparei com o edital da UFRJ que estava aberto e tinha uma vaga para a área”, lembra.

Depois da tempestade, o Sol sempre aparece. Aprovado, o novo aluno conta que a EM/UFRJ não apenas está superando suas expectativas, mas também lhe proporciona um ambiente vibrante e enriquecedor para aprofundar sua paixão pela Música. “Isto diz muito para alguém que saiu do seu país para ir atrás de um sonho”, comenta.

Feliciano destaca também a qualidade das aulas de Regência e a competência dos docentes, alguns dos quais gentilmente o aceitaram como assistente (professores Carlos Almada, Fábio Aduor, Pauxy Gentil Nunes e Rodrigo Cicchelli). “Há outros que igualmente merecem o meu muito obrigado, como o prof. Giulio Draghi, o prof. Sergio Alvares e o prof. Joao Vidal, que tem me ajudado desde o processo seletivo e principalmente no processo para conseguir a bolsa CAPES, que me permitiu estar no Brasil, além das professoras Juliana Melleiro e Maria José Chevitarese, que é, sem dúvida, a minha mãe acadêmica”, agradece o moçambicano para quem a jornada na UFRJ é muito mais do que uma mera busca por um diploma.

Ele carrega consigo um desejo profundo de levar os conhecimentos adquiridos na Escola para sua comunidade em Moçambique, onde planeja contribuir para a cena musical e educacional através da pesquisa dos ritmos locais. Sua formação na UFRJ o capacitará a desempenhar um papel crucial como regente coral e educador musical, respondendo a uma demanda ainda não plenamente atendida em seu país.

Para ele, cada minuto gasto na UFRJ é um passo em direção à realização de um sonho que o acompanha há anos. Com a sabedoria que adquiriu ao longo de sua trajetória, Feliciano encara cada desafio como uma oportunidade de crescimento e aprendizado. E com a humildade de suas palavras, deixa-nos uma valiosa lição de vida:

“Fiz uma longa caminhada desde que terminei a licenciatura há 13 anos. Hoje vejo perfeitamente que todas essas tentativas fracassadas que quase me levaram à depressão só serviram para me mostrar que ainda não tinha encontrado a universidade para realizar o meu sonho. Agora só lamento que as 24 horas que o dia tem não me permitam estudar tudo o que preciso e que a UFRJ dispõe, então me contento em explorar ao máximo esse tempo que tenho, pois quando chegar a hora de voltar para o meu país, todas estas oportunidades vão ficar aqui no Brasil. Para mim, realmente, CADA MINUTO CONTA!”, ensina Feliciano.

“O Ensaio de Ópera” e “A Cartomante”: Projeto Ópera na UFRJ leva espetáculo gratuito duplo aos palcos do Rio de Janeiro

O Projeto Ópera na UFRJ, uma das mais longevas iniciativas culturais da Universidade, levará um duplo espetáculo aos palcos do Rio de Janeiro em 2023. Serão duas óperas apresentadas em sequência: “O Ensaio de Ópera”, de Albert Lortzing; e “A Cartomante”, de Eduardo Frigatti.

Segundo o maestro André Cardoso, que participará da regência de ambas, “O Ensaio de Ópera” é um divertido singspiel que aposta na metalinguagem para desenvolver uma comédia sobre o próprio universo operístico. “‘Die Opernprobe’ é do compositor alemão Albert Lortzing (1801-1851), pouco executado no Brasil. Trata-se de um singspiel, ou seja, um gênero teatral que alterna diálogos falados e trechos cantados. É uma história divertida, que tem a ópera como assunto central, na qual um nobre, apaixonado pelo gênero, coloca seus empregados para encenar um espetáculo. Será cantada e dialogada em português, com o título de ‘O Ensaio de Ópera’”, explica o maestro.

“Em seguida será a vez de ‘A Cartomante’, uma ópera de Eduardo Frigatti, compositor brasileiro residente na Polônia. Será uma estreia mundial, ou seja, a primeira vez que aópera será encenada. Baseada em famoso conto de Machado de Assis, a ópera foi uma das finalistas do concurso instituído em 2022 pelo Fórum Brasileiro de Ópera”, completa André Cardoso.

A direção-geral fica a cargo de Lenine Santos, que descreve a produção de um evento de tal porte como desafiadora, mas satisfatória. “A experiência de produzir duas óperas este ano, num espetáculo dinâmico, complexo e metalinguístico, foi repleta de desafios que fomos superando a cada dia. ‘O Ensaio de Ópera’ é uma comédia sobre o próprio métier operístico e o amor a esse gênero. Será seguido pela estreia de ‘A Cartomante’, uma clássica tragédia urbana brasileira, que tem potencial musical e dramático para permanecer no repertório dos grandes teatros. Estamos muito felizes com o resultado que o esforço coletivo nos trouxe”, comenta o diretor.

A itinerância é uma parte importante do projeto. O intuito é levar a produção nascida na Universidade a outras cidades e comunidades, seja com os espetáculos completos, como acontecerá na Escola de Música e na Cidade Universitária, seja com versões menores, acompanhadas por piano, em eventos e palcos mais econômicos. As datas inicialmente agendadas para as récitas são as seguintes: 22/06 (19h), 23/06 (19h), 24/06 (17h) e 25/06 (17h) no Salão Leopoldo Miguez, na Escola de Música da UFRJ; e 03/07 (13h) no Auditório do Centro de Tecnologia da UFRJ, na Cidade Universitária, na Ilha do Fundão. A entrada é franca.

As apresentações acontecem num contexto de forte retomada cultural e, especificamente, de um grande reavivamento do gênero operístico no Brasil. O momento atual é marcado por várias estreias de óperas nacionais que tratam de temas históricos, literários e dramáticos brasileiros se sucedendo em várias cidades e regiões do país, atraindo uma população jovem e talentosa para os palcos líricos.

Fruto de uma parceria que envolve quatro unidades da UFRJ (Escola de Música, Escola de Comunicação, Escola de Belas Artes e Fórum de Ciência e Cultura), o Projeto Ópera na UFRJ demanda grande integração institucional. A realização de um evento de tamanha envergadura é viabilizada através da participação de professores e alunos de áreas como artes cênicas, cenografia, direção teatral, figurino, indumentária, música, produção, visagismo, regência coral e orquestral, além de mais de 150 elementos da

Orquestra Sinfônica da UFRJ, apenas para citar alguns envolvidos. O Projeto Ópera na UFRJ une-se para essa produção ao Projeto Sistema Nacional de Orquestras Sociais (Sinos). Resultado da parceria Arte de Toda Gente, entre a Funarte e a UFRJ, o Projeto Sinos tem como escopo principal a capacitação de regentes, instrumentistas, compositores e educadores musicais, oferecendo suporte aos projetos sociais de música com foco no desenvolvimento das orquestras-escolas em todo o Brasil.

A iniciativa também conta com o apoio de: Casa da Ciência; Circuito Proart; Faperj; Politécnica UFRJ; PPGM; Promus; Universidade Federal de Juiz de Fora/ Pró-Música.

Escola de Música da UFRJ fica na Rua do Passeio, 98, Centro, Rio de Janeiro. O Auditório do Centro de Tecnologia da UFRJ fica na Avenida Athos da Silveira Ramos 149, Bloco A, Cidade Universitária, Ilha do Fundão, Rio de Janeiro.

 Ficha Técnica

PROJETO ÓPERA NA UFRJ 2023 apresenta
“O ENSAIO DE ÓPERA” e “A CARTOMANTE”
(Um espetáculo duplo de ópera – díptico)

Direção Geral: Lenine Santos
Direção junto à Extensão e Funarte: Homero Velho
Direção junto ao Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ: Andrea Adour
Setor Artístico da Escola de Música da UFRJ: Marcelo Jardim
Orquestra Sinfônica da UFRJ

O Ensaio de Ópera
Música e libreto: Albert Lortzing (1801-1851)
Versão em português: Helen Heinzle Sathler
Regentes: Glauco Fernandes / André Cardoso
Direção cênica: José Henrique Moreira
Assistente de Direção e movimento: Marcellus Ferreira
Preparação musical: Inácio de Nonno
Pianista preparadora: Caroline Barcellos

Elenco:
HÄNCHENN: Carolina Morel / Jacqueline Rezende
ADOLPH: Gustavo Ballesteros / Marcus Gerhard
JOHAN: Paulo Maria / Cristóbal Rioseco
LOUISE: Duda Espírito Santo / Renata Vianna
CONDESSA: Julia Riera / Giovanna Toscano
VELHO BARÃO: Renato Lima/ Daniel Zanatta
MARTIN: Carlos Côrtes / Daniel Zanatta
CHRISTOPHER: Moisés Hills / Paulo Maria
CONDE: Renato Lima / Carlos Côrtes

A Cartomante
Música e libreto: Eduardo Frigatti
Regente: Thiago Santos / André Cardoso
Direção Cênica: Antônio Ventura
Assistentes de direção: Kamilla Ferreira e Vinícius Dratovsky
Preparação musical: Lenine Santos/ Homero Velho
Pianistas preparadores: José Sacramento / Cecília Fabião / Thalyson Rodrigues

Elenco:
CAMILO: Rodrigo Barcelos / Marcos Vinicius Lima
RITA: Leticia Peixoto de Moraes / Dani Sardinha
CARMEN: Kássia Lima / Mariana Leandro
VILELA: Iago Cirino / Felipe Corrêa
CARTOMANTE: Vivian Fróes / Daniela Moreira

Produção executiva: Fabricia Medeiros / André Garcez
Orientador de figurino: Leo Jesus
Figurinistas: Carla Teixeira e Carlos Almeida
Assistentes de figurino: Beatriz Gandra, Nícolas Rodrigues e Stephanie Guimarães
Estagiáros de figurino: Denise Silva, Lorena Couto, Raquel Costa e Thaís Frossard.
Orientadora de Cenografia: Andréa Renk
Cenógrafas: Julia Conde / Yasmin Barbosa de Macedo
Luz: SUAT – Sistema Universitário de Apoio Teatral
Cenotécnica: Humberto Junior

 

Ação estratégica da Escola de Música da UFRJ viabilizou restauração de acervo histórico nas celebrações do Bicentenário da Independência

O ano passado foi marcante para a Escola de Música da UFRJ. Ao longo de 2022, um conjunto de documentos que integram o acervo da Biblioteca Alberto Nepomuceno (BAN) ganhou o noticiário nacional em função das celebrações do bicentenário da independência. Considerados verdadeiras joias da Escola, os manuscritos em questão não registram notas, pausas e claves quaisquer: são as partituras originais dos Hinos Nacional, da Bandeira, da Independência e da Proclamação da República.

Ainda em abril de 2022, pela primeira vez, os documentos raros deixaram as dependências da instituição. Sob escolta da Polícia Militar, o material seguiu de avião para Belo Horizonte, onde foi recebido em uma cerimônia oficial que contou com os Dragões da Independência. Junto das composições históricas e símbolos nacionais, constavam também o Hino da Feliz Aclamação de D. João VI e Estrela do Brasil, além de outros documentos que integraram o processo de construção das respectivas melodias.

Inicialmente, uma parte do acervo foi exibida ao público na exposição “Já Raiou a Liberdade: Hinos do Brasil”, no Palácio da Liberdade, antiga sede administrativa do governo e residência oficial dos governadores de Minas Gerais. O restante do material seguiu para o Arquivo Público Mineiro, instituição nacionalmente reconhecida pelo trabalho de recuperação estética de documentos antigos.

Lá uma equipe técnica, em conjunto com especialistas da Escola de Belas Artes da UFRJ, atuou na remoção manchas e do amarelecimento natural do material, e também na recomposição do papel das partituras, que se tornou quebradiço por conta do passar do tempo. Além disso, pequenos rasgos também foram preenchidos com enxertos através de um processo mecânico de higienização.

“Recuperar e resguardar esses documentos é trazer ao presente a memória viva para que outros brasileiros possam conhecer os símbolos que nos unem como nação”, disse na ocasião o maestro Marcelo Jardim, vice-diretor da Escola de Música da UFRJ.

Em contrapartida pelo trabalho, as partituras ficaram expostas na antiga sede do governo de Minas até o fim de agosto. A iniciativa, que abriu as comemorações do Bicentenário da Independência, foi organizada pela Secretaria de Estado de Cultura e Turismo de Minas Gerais (Secult) em parceria com o programa Arte de Toda Gente, da Fundação Nacional de Artes (Funarte) e UFRJ, com curadoria da Escola de Música.

De Minas Gerais, os hinos seguiram para Brasília, onde a partir de setembro de 2022, ficaram expostos no Palácio do Planalto. Na exposição “Hinos do Brasil”, além de conferir as partituras, o público também teve a oportunidade de ouvir um duo de piano e flauta executar as peças ao vivo, além de um repertório com obras relacionadas.

Para Ronal Silveira, diretor da Escola de Música da UFRJ, a iniciativa marcou um novo momento de percepção e valorização do nosso patrimônio. “Um povo se reconhece de várias formas, e o símbolo da música pátria inspira este pertencimento, que é, muitas vezes, apenas subliminar. Restaurar e expor este material de grande valor histórico é permitir a valorização da nossa cultura, promovendo a consciência de ser brasileiro”, enfatizou.

No início de novembro, durante a Rio Innovation Week, foi lançada também uma versão virtual da exposição, que pode ser acessada através do endereço a seguir: http://artedetodagente.com.br/hinosdobrasil. No final de 2022, agora plenamente restaurado e pronto para outros séculos de história, o acervo retornou ao seu lar: a Escola de Música da UFRJ.

Sobre os hinos

O hino mais antigo que foi restaurado é de 1816 – Estrela do Brasil, de José Joaquim de Souza Negrão, que fora dedicado ao príncipe D. Pedro. O mais recente é o Hino à Bandeira, de 1906, de Francisco Braga, sobre poema de Olavo Bilac. Diversas curiosidades cercam as partituras. Uma delas é que a obra mais antiga se assemelha a uma ária de ópera e foi composta por Marcos Portugal, que foi o professor de música de Dom Pedro I. O outro manuscrito é a composição original do imperador, que, na tarde de 7/9/1822, musicou os versos do jornalista, político e poeta Evaristo Ferreira da Veiga e Barros. Aliás, a composição se tornou o primeiro hino do país, logo após o grito do Ipiranga. Mas teve vida curta, pois, a partir da abdicação de Pedro I, outro hino antilusitano conquistou os brasileiros.

Essa foi a primeira versão do atual Hino Nacional Brasileiro, composta em 1831 por Francisco Manuel da Silva e com letra de Ovídio Saraiva de Carvalho e Silva. Seus versos retratavam a insatisfação com os portugueses do primeiro império. Por muito tempo, ficou conhecido como “7 de abril” – a data da abdicação – e depois levou o nome de “Marcha Triunfal” até ganhar nova letra, em 1841, quando da coroação de Pedro II. Dessa vez, os versos exageravam nos elogios ao soberano que nasceu no país e vigorou até o golpe que o derrubou, em 1889.

O governo que se instalou sob a liderança do marechal Manuel Deodoro da Fonseca organizou um concurso público para escolher um novo hino, empenhado em solapar os legados monárquicos e substituí-los por símbolos nacionais republicanos. Quem ganhou a disputa foi Leopoldo Américo Miguez, à época diretor da Instituto Nacional de Música, antecessor da Escola de Música da UFRJ, com o hino que diz “Liberdade, liberdade / abre as asas sobre nós”. Reza a lenda que o marechal Deodoro decidira-se por manter a antiga melodia, uma vez que a população a cantava entusiasmada em festas, antes de serem os hinos tão associados a solenidades e ao militarismo.

Segundo texto publicado no site do Senado Federal, nos festejos do segundo mês da Proclamação da República, no Palácio Itamaraty, sede da Presidência, o ministro da Guerra, Benjamin Constant, apresentou a Deodoro os argumentos pela conservação do antigo hino. Aos primeiros acordes da antiga melodia, que era tocada com vigor pelos músicos que se apresentavam no Itamaraty, o público que acompanhava as celebrações entrou em pânico, acreditando se tratar de uma senha para a deflagração de um contragolpe para derrubar Deodoro e restabelecer a monarquia.

O governo provisório autenticou a antiga música, mas a letra não. Ela então passou a ser executada por instrumentos. Em 1906, outro diretor do Instituto Nacional de Música, o maestro Alberto Nepomuceno, percebeu diferenças na execução do hino pelas bandas militares durante a posse do presidente Afonso Pena. Ele decidiu comparar com a partitura original, composta no início do império pelo maestro Francisco Manoel da Silva, mas depois convenceu Afonso Pena a realizar um novo concurso público para a escolha de novos versos para o hino.

O poeta Joaquim Osório Duque-Estrada escreveu o poema que encantou o diretor do Instituto Nacional de Música. Alberto Nepomuceno decidiu imprimir várias cópias da letra, enviando-as para escolas e quartéis de todo o país, para que, mesmo sem ser oficial, começasse a ser aprendida por todos. Todavia, só em 1922, à véspera das celebrações pelo centenário da independência e sob gestão do presidente Epitácio Pessoa, os versos do poeta Duque-Estrada foram reconhecidos por meio do decreto nº 4.559, de 21 de agosto de 1922, enquanto a versão corrente do hino foi oficializada como símbolo nacional pela lei nº 5.700, de 1º de setembro de 1971, publicada no Diário Oficial (suplemento) de 2 de setembro de 1971.

com informações de Sidney Coutinho e Conexão UFRJ

Desmistificando a educação a distância

Dentre as diversas mudanças observadas nos processos educacionais ao longo dos últimos anos, uma das mais relevantes é, sem dúvida, a popularização da educação a distância (EaD). De acordo com a legislação brasileira, em termos conceituais, a EaD pode ser definida como “a modalidade educacional na qual a mediação didático-pedagógica nos processos de ensino e aprendizagem ocorre com a utilização de meios e tecnologias de informação e comunicação, com estudantes e professores desenvolvendo atividades educativas em lugares ou tempos diversos”.

Para se ter uma ideia, entre 2011 e 2021, o número de estudantes matriculados em cursos superiores de graduação nessa modalidade aumentou 474%. Se em 2011 os ingressos por meio de EaD correspondiam a 18,4% do total, dez anos depois, em 2021, esse percentual chegava a 62,8%. Os dados integram o Censo da Educação Superior 2021, divulgados no fim do ano passado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) e pelo Ministério da Educação (MEC).

Esse processo de crescimento da EaD no país tomou uma proporção especialmente significativa a partir de 2017, quando o Decreto Nº 9.057 trouxe uma série de mudanças nas permissões de realização de cursos desse tipo. A norma em questão viabilizou que instituições de ensino superior passassem a oferecer cursos de EaD independentemente do credenciamento para cursos presenciais.

Outro marco importante para tal expansão foi a pandemia de covid-19, ocasião em que milhares de instituições tiveram que mudar completamente suas estratégias de ensino do dia para a noite, se vendo forçadas a rever muitas de suas rotinas escolares. A necessidade imposta por esse motivo de força maior acabou por gerar não apenas um aprimoramento das ferramentas de comunicação a distância existentes, mas também um acúmulo de conhecimento prático acerca do tema. Assim, muito do que inicialmente ainda era feito em caráter experimental até 2020 acabou eventualmente sendo incorporado e institucionalizado.

Contudo, apesar dessa recente expansão da EaD, sua aceitação ainda está longe de ser uma unanimidade. Os motivos são os mais variados: falta de confiança por parte dos atores envolvidos, falta de respaldo das instituições que promovem esse tipo de educação, sensação de que o diploma “valeria menos” do que o de um curso presencial, e até mesmo certo corporativismo de professores que apontam o modelo EaD como um risco à manutenção de empregos. Em linhas gerais, é possível notar que existe ainda um senso comum que simplifica a questão ao opor, de um lado, a boa educação presencial e, de outro, a má qualidade da educação a distância.

De acordo com o professor de Piano da Escola de Música da UFRJ Ernesto Hartmann, essa visão maniqueísta ainda encontra certa dificuldade de ser superada justamente por conta dos preconceitos nela embutidos. “Poderíamos também pensar no mau ensino presencial e no bom ensino a distância. Ou em ambos ruins. Ou ainda em ambos bons”, provoca o docente, antes de concluir seu raciocínio: “A questão é que uma modalidade não se opõe à outra. Elas são complementares”.

Tendo ministrado a disciplina Teclado no Prolicenmus, curso pioneiro de Licenciatura em Música EaD, fruto de um convênio entre a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e outras seis instituições parceiras, entre elas a Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), onde lecionava à época, Hartmann fala com conhecimento de causa.

Iniciado em 2008, o Prolicenmus contou com um público-alvo constituído por professores de Música que já atuavam nos sistemas públicos de ensino de diversas regiões do país, mas que ainda não possuíam habilitação legal — Licenciatura em Música — para o exercício da função. Segundo Hartmann, a experiência foi muito positiva, tendo em vista que foi o primeiro curso de graduação na modalidade EaD realizado no Brasil, utilizando-se de forma bastante vanguardista dos softwares e plataformas de comunicação e videoconferência então disponíveis.

Já entre os principais desafios, o professor destacou um em especial: “a evasão na educação a distância é muito alta”. O curso ofereceu inicialmente 840 vagas. Ao todo 724 alunos cumpriram as exigências para se matricularem, 614 compareceram à aula inaugural e, em 2012, após nove semestres, formaram-se 189.

A experiência é descrita em detalhes no livro “EAD na Formação de Professores de Música”. A publicação conta com um capítulo assinado pelo próprio professor Ernesto Hartmann, que é otimista quanto às possibilidades que o modelo pode agregar à tradicional educação presencial: “Sempre haverá questões que precisam ser resolvidas presencialmente e outras que podem ser resolvidas a distância. Não existe uma oposição entre uma e outra, mas uma complementaridade. É só uma questão das pessoas começarem a ver que funciona, que existem tecnologias pra isso. Caminhamos para um modelo cada vez mais híbrido onde as ferramentas que são características da EaD daqui a pouco estarão se fundindo com o ensino presencial”, concluiu.

Sua percepção se coaduna com a de Ronal Silveira, diretor da Escola de Música da UFRJ. Num momento em que se busca atualizar o projeto pedagógico da Escola, ele explica que o que está em jogo, de forma alguma é um conflito entre modalidades de ensino, mas sim um melhor aproveitamento das tecnologias disponíveis, de modo a trazer uma importante complementação ao modelo tradicional. Para ele, a EaD poderia impactar em especial o leque de possibilidades de abrangência das ações extensionistas da Escola, ou mesmo de determinadas disciplinas de cunho mais teórico.

 O que prevemos inicialmente não são necessariamente cursos, mas atividades de extensão, como por exemplo, conferências, congressos. Podemos imaginar masterclasses onde um professor no exterior ministre aulas para os alunos da EM, ou então, como já aconteceu, um professor da EM fazendo uma conferência para alunos de graduação da Universidade de Quilmes em Buenos Aires, disse ele.  Atualmente há essa possibilidade de que um professor esteja em uma universidade dando aulas para alunos de outra instituição”, ilustrou.

Mesmo ciente do potencial existente nessa combinação de modelos, Ronal destacou a necessidade de levar a discussão à comunidade acadêmica, em especial aos alunos e professores da EM mediante a revisão de seu projeto pedagógico. “Precisamos perder o receio de que o uso da modalidade EaD vai precarizar o ensino, pois vários exemplos mostram exatamente o contrário. Ela veio para fortalecer as práticas presenciais. Mas isso é algo que teria que estar previsto no projeto pedagógico da EM”, frisou.