170 ANOS FORMANDO MÚSICOS DE EXCELÊNCIA

Sonoros 170 anos de vida: Escola Nacional de Música da UFRJ comemora aniversário em grande estilo

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Matéria publicada no site do Jornal do Brasil (13/08/2018) e assinada por Celina Côrtes destaca os 170 anos da Escola de Música.

Era o ano de 1933 quando o aluno Alfredo da Rocha Viana Filho prestou concurso para a Escola Nacional de Música. Para isso, foi obrigado a fazer uma certidão de nascimento, quando errou não apenas a data a que veio ao mundo, como o seu próprio nome, omitindo o ‘Filho’, e o nome da mãe, que registrou como Raimunda Rocha Viana, quando ela se chamava Raimunda Maria da Conceição. A pérola, pinçada pelo biógrafo Sérgio Cabral, aconteceu com Pixinguinha (1897-1973), que resolveu seguir conselhos de amigos e, apesar de já famoso, matriculou-se na Escola Nacional de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A história volta à tona com os 170 anos que a instituição completa hoje, comemorados com uma farta programação que vai até sexta-feira (veja quadro).

 o predio de estilo ecletico esta com a fachada pichada e o piso arranhad
O prédio de estilo eclético está com a fachada pichada e o piso arranhado.

Tudo começou quando, em pleno império, a Sociedade de Música conseguiu investir os recursos obtidos com duas loterias para inaugurar sua sede, em 13 de agosto de 1848 - se instalou em uma sala do Museu Imperial, na Praça da República. A iniciativa foi do compositor, regente e professor Francisco Manoel da Silva (1795-1865). A primeira sede própria só viria 24 anos depois, quando a Sociedade mudou-se para a Rua Lampadosa, hoje Luís de Camões. No ano seguinte à Proclamação da República, já em 1890, a instituição virou Instituto Nacional de Música, transferida em 1913 para a sede atual, no Passeio Público. E em 1937, tornou-se Escola Nacional de Música, por onde passaram, entre milhares de pessoas não contabilizadas, além de Pixinguinha, Francisco Braga, autor do “Hino Nacional”; o maestro Carlos Gomes e os filhos do multi-instrumentista Egberto Gismonti, a pianista Bianca e o violonista Alexandre, entre muitos outros.

Hoje com mais de 800 alunos na graduação, 340 bacharelandos, 200 em licenciatura de música, 40 no mestrado acadêmico, 25 no profissional e 80 no doutorado, nos últimos quatro anos a escola incorporou importantes inovações, como a criação do curso de doutorado, do mestrado profissional — diferente do acadêmico, mais voltado para a vida cotidiana — e, entre os 13 bacharelados oferecidos, o de bandolim e cavaquinho. Conforme o professor de Regência André Cardoso, que dirigiu a instituição de 2007 a 2015, a maior procura ocorre pelas aulas de canto e de violão, instrumento mais popular do país. “As aulas de violino, por exemplo, são para alunos individuais, e quem escolhe um instrumento como harpa, que não é fabricada por aqui, acaba por praticar em nossas próprias harpas, porque ninguém tem um instrumento desses em casa”, observa Cardoso. Outra procura grande é por licenciatura, formação que vai permitir aos interessados ensinar música nas escolas públicas e particulares.

 
Pedro Cantalice foi um dos primeiros a se formarem no curso de cavaquinho.

Filho de taxista aposentado e professora de educação física, o que prova que a música não tem componentes genéticos, Pedro Cantalice, 33 anos, foi um dos primeiros a se formarem no curso de cavaquinho. Nem por isso, considera que a escola esteja buscando uma maior aproximação com a música popular. “Tive acesso a diversos assuntos em disciplinas ricas em informações que muito contribuíram para minha formação, gratuitamente. No meu recital de formatura, em julho, apresentei um repertório diversificado justamente para mostrar as possibilidades do cavaquinho. Executei músicas solo à capela, como a estreia da peça ‘Salsa e Cebolinha’, do maestro Ricardo Tacuchian, com linguagem de concerto contemporâneo. Também toquei o ‘Concertino para cavaquinho e cordas’, do maestro Ernani Aguiar, e o clássico do choro ‘Pedacinhos do céu’, de Waldir Azevedo”, enumera.

Ensino democrático

Quem procura a escola são pessoas com maior interesse em música de concerto, assegura a diretora Maria José Chevitarese, que desfaz a ideia de que os jovens, principalmente, não se interessariam pela música erudita. “Temos um coro infantil, com alunos de 7 a 16 anos e, desde 1994, eles começaram a montar óperas. Todos adoram! Temos também um coral com 45 jovens de 21, 22 anos, só com repertório de concertos, e mais de 50 alunos de canto lírico. Não vejo falta de interesse pela música erudita, pelo contrário”, diz Maria José, deixando claro que também existem iniciativas mais populares por lá, como o conjunto vocal Brasil Ensemble, cujo repertório vai de Francisco Mignone ao ritmo amazônico do carimbó. “Também temos grupos de choro e jazz”, conta ela. É da escola a mais antiga orquestra sinfônica do estado, a Orquestra Sinfônica da UFRJ, criada em 1924.

Esse interesse é constatado durante o ensaio do Coro Infantil da UFRJ, regido pela diretora, que chega bufando ao quinto andar, onde ocorrem os ensaios do qual é regente, depois de subir a pé os cinco pavimentos de escadas. Realmente, o velho elevador de portas manuais não inspira confiança. Compenetrados, os pequenos, de várias cores e procedências sociais, se preparam para a apresentação na próxima quinta-feira, às 18h, naquele mesmo endereço. Eles ensaiam todas as terças e quintas-feiras, a partir das 16h e, para estarem ali, só há uma única exigência: que estudem, seja em escolas públicas ou particulares.

E se o potencial humano é exemplar, o mesmo não se pode dizer do potencial patrimonial. O histórico prédio de estilo eclético está tomado por pichações e, em seu interior, as paredes descascam e o piso de madeira está tomado por arranhões. O icônico grafite da parede lateral que reproduzia o cenário da Lapa está destruído. Um breve olhar confirma a falta de recursos, algo lamentável para uma instituição que forma gratuitamente gerações de músicos dos mais variados gêneros e recebe qualquer criança, independentemente da classe econômica.

PROGRAMAÇÃO

Hoje, 19h, no Salão Leopoldo Miguez, Concerto de Abertura

Prelúdio para órgão e orquestra, de Francisco Braga; Psaume XXIV “La terre appartient à l’Éternel”, de Lili Boulanger, tenor Guilherme Moreira; Sinfonia no 3 “Órgão” op.78, de Camille Saint-Saens; Corais Brasil Ensemble-UFRJ e Sacra Vox

Regência: Maria José Chevitarese e Valéria Matos, Eduardo Biato (órgão). Orquestra Sinfônica da UFRJ, regência: André Cardoso e Marcelo Jardim

Amanhã, 19h, Salão Leopoldo Miguez, Concerto em homenagem a Sandrino Santoro e Noel Devos

Canção do Agreste e Dança, de Santino Parpinelli; Músicas dedicadas a Sandrino Santoro; Sandrino no Choro, de Adriano Giffoni; Dueto Modal, de Ernst Mahle; Sonata opus 24, de Michel Corrette; Sonata opus 14, n° 5, de Joseph Bodin Boismortier; Suite n° 6 para violoncelo, de Johann Sebastian Bach; Valsa quase modinheira, de Francisco Mignone; Quinteto para sopros, de Mario Tavares; Serenata a Cinco, de Edino Krieger; Suite para Quinteto de Sopros, de Radamés Gnattali, com o Quinteto Villa-Lobos

Quarta-feira, 19h, Salão Leopoldo Miguez, Orquestra de Sopros da UFRJ

Omnibus Intrata, fanfarra para conjunto de metais, de Roberto Macedo; Dobrado “Presidente”, de Mário Tavares; Suíte “Meu Pedacinho de Chão”, de Tim Rescala; Abertura Brasil 2012, para banda sinfônica, Abertura Rio 450, para banda sinfônica

Rapsódia Maracatu, para piano e banda sinfônica, de Dimitri Cervo; Suíte Marajoara, de José Ursicino da Silva e Dobrado “Barão do Rio Branco”, de Francisco Braga

Quinta-feira, 19h, Salão Leopoldo Miguez, Coral Infantil da UFRJ

Rondas Infantis, de Edino Krieger; Kyrie, de Ruth Dwyer e Martin Ellis; Las Mañanitas, com Folclore Mexicano; Finale (da Flauta Mágica), de Amadeus Mozart; O Mio Babbino Caro, de Gianni Schicchi; The Lord Bless you anda keep you de Jonh Rutter Image, de Eugène Bozza; Azulão, de Jayme Ovalle; O Barco, com Poema de Fernando Sabino e Mary França e música de Marcos Leite; Maria Rita, de César Camargo Mariano; Fiorin Fiorello, de Vittorio Mascheroni e Peppino Mendes.

Sexta-feira, 19h, Salão Leopoldo Miguez, Concerto de encerramento

Sonatina nº 2, de César Guerra Peixe; Isoldens Liebestod aus Tristan und Isolde, de Richard Wagner; Valsa de Esquina n°3, de Francisco Mignone; Peça escrita especialmente para a tese de Mestrado da pianista, defendida na Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Maria Helena de Andrade (piano); Choros nº 5, de Heitor Villa-Lobos; Ernesto Nazareth no Cinema Odeon, de Ricardo Tacuchian e Polonaise em lá bemol maior op. 53, de Frédéric Chopin.

Correspondência

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